
Rucelmar Reis
Rucelmar Reis é empreendedor, com vasta experiência em tecnologia e negócios digitais. Fundador e sócio de diversas empresas, atua como mentor e conselheiro de startups. Formado em ESADE Barcelona e MIT, une visão estratégica e prática no desenvolvimento de negócios.
Na Veia
Tem gestor querendo se dividir antes de crescer
O ciclo celular ensina muito sobre desenvolver pessoas, compartilhar conhecimento e ampliar equipes.
Por Rucelmar Reis
Uma coisa que sempre me chama atenção nas empresas é a pressa para criar estrutura.
O negócio ainda está tentando organizar o básico, mas já aparece a vontade de criar uma supervisão. Depois vem a coordenação, a gerência e mais alguns cargos para acomodar pessoas que, muitas vezes, ainda não estão prontas para assumir nem a responsabilidade que já têm.
Parece mais uma daquelas “dores” do crescimento, certo? Na maioria das vezes não é.
O que se vê muito são empresas tentando parecer maior do que conseguem ser.
A biologia nos dá uma boa lição sobre isso. As células primeiro crescem e depois se dividem. Não acontece ao contrário. E tem um claro motivo para isso. Uma célula nasce pequena, desenvolve sua estrutura, produz o que precisa, duplica seu material e faz algumas verificações antes de se dividir.
A ordem aqui importa muito.
Se ela se dividisse antes de crescer, cada nova célula seria menor e mais fraca. Depois de algumas gerações, não haveria estrutura suficiente para manter o funcionamento básico. Da mesma forma, se ela crescesse muito e não se dividisse, teria menor capacidade de sobrevivência.
Então não se trata de proibir a divisão e o crescimento, mas sim de saber a hora certa de se fazer isso.
Na gestão, acontece algo parecido quando um líder quer dividir sua equipe antes de desenvolver as pessoas.

A célula cresce, duplica sua estrutura e só então se divide. Na empresa, a lógica não deveria ser diferente.
Ele quer gente debaixo dele. Quer deixar de fazer determinadas tarefas. Quer ter uma estrutura que demonstre crescimento. Mas não investe no crescimento de quem já está na equipe. Não dá contexto, não ensina a tomar decisão, não compartilha conhecimento e depois conclui que ninguém está preparado. Ou seja, ganha mais comandados, mais trabalho de gestão e no final faz aquele alarde de que ninguém é bom na equipe e que ele precisa fazer absolutamente tudo.
Como alguém vai estar preparado se nunca teve espaço para crescer?
Esse é um dos erros mais comuns que encontro na gestão. O chefe confunde delegar com distribuir tarefas. Só que delegar não é simplesmente tirar uma atividade da sua mesa e colocar na mesa de outra pessoa. É preparar alguém para entender o problema, tomar uma decisão e responder pelo resultado.
Dá mais trabalho, claro. É mais rápido fazer sozinho. Também é mais confortável centralizar tudo e reclamar que a equipe não tem autonomia. O problema é que esse modelo não escala. O gestor vira o gargalo e a equipe aprende a esperar.
Na célula, existe uma fase de crescimento antes da divisão. No time, essa fase deveria ser usada para desenvolver competência, confiança e autonomia. É quando a pessoa aprende o negócio, entende os critérios de decisão e começa a entregar sem precisar consultar o líder a cada movimento.
Também existe uma segunda lição importante. Antes de se dividir, a célula duplica o próprio material. Em uma empresa, isso tem muito a ver com conhecimento.
Se apenas o fundador sabe falar com os clientes, negociar com fornecedores, resolver conflitos e tomar decisões, a empresa não tem uma cultura forte. Tem uma pessoa sobrecarregada.
O conhecimento precisa circular. Os critérios precisam ser explicados. Os processos importantes precisam deixar de depender da memória de uma única pessoa. Caso contrário, qualquer crescimento vira uma cópia incompleta do negócio original.
É aí que surgem os problemas. A nova área não entende a lógica da empresa. O novo líder cria regras próprias. O cliente recebe respostas diferentes. E a direção descobre, tarde demais, que aumentou o número de pessoas sem aumentar a capacidade de gestão.
Não estou dizendo que a empresa precisa esperar tudo ficar perfeito para crescer. Se fosse assim, ninguém contrataria, promoveria ou abriria uma nova frente de negócio. Toda expansão envolve algum risco e exige que as pessoas aprendam durante o caminho.
Mas uma coisa é crescer com responsabilidade. Outra é criar cargo para resolver falta de organização.
Tem gerente que quer uma equipe grande, mas não sabe dizer o que cada pessoa deveria entregar. Tem empreendedor que quer contratar mais gente, mas ainda não conseguiu explicar como o negócio ganha dinheiro. Tem líder que promove alguém porque precisa preencher um espaço no organograma, não porque aquela pessoa está pronta para multiplicar conhecimento e tomar decisões.
Quando o título vem antes da capacidade, o passivo está formado.
A empresa cresce de verdade quando as pessoas crescem junto. Quando alguém consegue assumir uma responsabilidade maior sem precisar carregar apenas o nome do cargo. Quando a divisão de tarefas acontece porque existe mais trabalho relevante, e não porque o gestor quer se livrar do trabalho difícil.
Para mim, essa é a parte mais interessante da analogia. A célula não se divide para parecer maior. Ela se divide porque cresceu o suficiente para estar pronta para funcionar de outra forma.
Talvez os gestores devessem fazer a mesma pergunta antes de criar uma nova posição: nós realmente crescemos ou apenas estamos tentando dividir uma estrutura que ainda é pequena?
Antes de contratar mais gente, desenvolva quem já está com você. Antes de criar uma nova área, organize o que já existe. Antes de pedir autonomia, compartilhe informação e dê autoridade.
A empresa pode até dividir tarefas rapidamente. Mas, se não houver crescimento de pessoas, processos e responsabilidade, ela estará apenas espalhando o mesmo problema por mais mesas.
Na natureza, a divisão é consequência do crescimento. Na gestão, também deveria ser.



