
Rucelmar Reis
Rucelmar Reis é empreendedor, com vasta experiência em tecnologia e negócios digitais. Fundador e sócio de diversas empresas, atua como mentor e conselheiro de startups. Formado em ESADE Barcelona e MIT, une visão estratégica e prática no desenvolvimento de negócios.
Na Veia
O que aprendi fazendo negócios em Portugal
Acabo de passar um mês intenso em Portugal, conduzindo a internacionalização de uma empresa de tecnologia brasileira em solo europeu. Não foi uma viagem de turismo (muito longe disso) ou uma análise à distância de relatórios sobre o mercado europeu. Foi um mês vivendo o dia a dia, indo em várias autarquias e concelhos, sentando em mesas de negociação, conversando com contabilistas e advogados locais, entendendo como o europeu pensa e, principalmente, como o português faz negócios.
Volto para o Brasil com uma bagagem pesada de aprendizados, mas com a certeza de que precisarei retornar em poucos dias, tamanhas são as oportunidades nessa terra. Esse mercado exige acompanhamento de perto. E a oportunidade que se desenha na parceria entre Brasil e Portugal é grande demais para ser tratada à distância.
O primeiro choque cultural que a gente sente não é a língua, mas a forma de usá-la. O brasileiro é o mestre da entrelinha, do "jeitinho", do contorno. Nós amortecemos as palavras para não gerar atrito. O português, por outro lado, é direto e literal. Se a resposta for não, é não. Sem rodeios, sem promessas vazias de "vamos marcar um café". No começo, essa objetividade assusta o executivo brasileiro acostumado a ler sinais invisíveis. Mas, depois de alguns dias, você percebe a eficiência disso. A diretividade portuguesa economiza tempo, energia e alinha expectativas de forma cristalina. É uma lição importante sobre como a comunicação nos negócios deveria ser: clara, objetiva e sem ruídos. Afinal, a gente fala tanto que precisamos disso, mas na prática somos treinados a “quebrar o gelo”, dar aquela volta até ir ao ponto. E não se trata de falta de educação. Uma conversa direta é respeitosa, pois respeita o que cada um tem de mais precioso: O tempo.
OK, mas o que nós, brasileiros, trazemos na bagagem e aplicamos com sucesso aqui? A nossa resiliência e a capacidade de adaptação rápida. Nós fomos forjados, desde sempre, em um mercado instável, complexo e altamente competitivo. Quando uma empresa de tecnologia brasileira aterrissa em Portugal, ela traz uma agilidade operacional e uma fome de inovação que sacodem o ambiente local. Nós sabemos escalar soluções com rapidez, algo que o ecossistema europeu, por vezes mais engessado e cauteloso, admira e precisa. Se as conversas em Portugal são mais diretas, as ações, tentem a ser mais demoradas do que estamos acostumados.
E aqui entra um ponto que me chamou muita atenção: as Smart Cities. Como a solução de tecnologia que vim implementar é de Inteligência Urbana, precisei estudar o mercado. Quando olhamos para o ranking global do IMD Smart City Index de 2026, vemos Zurique, Oslo e Londres no topo. Cidades portuguesas como Lisboa e Porto, apesar de todo o charme e do boom de startups (já são mais de 5.000 no país), ainda patinam para entrar na elite das cidades verdadeiramente inteligentes. Por quê? Porque Portugal ainda sofre com gargalos de infraestrutura legada, burocracia na adoção de tecnologias urbanas e uma velocidade de implementação que não acompanha a velocidade da inovação que nasce nos seus próprios hubs tecnológicos.
Mas para minha surpresa, encontrei um catalisador gigantesco no horizonte que vai mudar esse cenário: a Copa do Mundo de 2030.
Portugal será sede junto com Espanha e Marrocos. Estádios como a Luz e Alvalade, em Lisboa, e o Dragão, no Porto, serão palcos globais. E é aqui que a nossa experiência brasileira vale ouro. Nós vivemos a Copa de 2014. Nós sabemos exatamente o que funciona e o que vira "elefante branco". Nós aprendemos a duras penas sobre mobilidade urbana temporária, sobre a necessidade de conectividade robusta em massa e sobre segurança cibernética em megaeventos.
Portugal vai experimentar nos próximos quatro anos uma injeção brutal de investimentos para modernização urbana. É a chance de ouro para dar o salto definitivo no conceito de Smart Cities. E quem melhor para fornecer tecnologia, infraestrutura de software e inteligência de dados para esse momento do que as empresas brasileiras que já passaram por isso?

A parceria Brasil e Portugal pode ser muito maior do que a simples imigração de talentos. Saiba que hoje já somos mais de 200 mil brasileiros morando lá. Portugal é a nossa porta de entrada mais estratégica para a União Europeia. O Brasil é a escala de mercado e a agilidade de execução que Portugal precisa para validar tecnologias antes de expandir pelo continente.
Saio desse primeiro mês de convivência com os portugueses com um bom sentimento de acolhimento e de muitas possibilidades de parcerias e negócios duradouros. Vi, na prática, que a nossa tecnologia não deve nada à europeia. Confiante porque a nossa capacidade de execução é um diferencial competitivo real. Internacionalizar não é abrir um CNPJ (ou NIPC aqui) e achar que tudo vaio acontecer em uma esteira de progresso. É construir pontes sólidas, trabalhar muito, estabelecer conexões para tentar ser aceito pela comunidade portuguesa, entender a literalidade do outro e estar presente quando as oportunidades de 2030 começarem a se desenhar hoje. Se você pensa em trazer o seu negócio para a Europa, fica meu conselho: Comece por Portugal. Mas não venha sozinho, com a cara e a coragem apenas (você vai precisar das duas também), mas conte com consultoria especializada, que pode economizar alguns tombos e muito dinheiro.
Mais uma vez eu reforço: Não existe vácuo nos negócios. Todo empresário que tem um produto maduro enfrenta, em algum momento, a mesma encruzilhada: ou você leva o que já provou para onde ainda não chegou, ou você cria algo novo para quem já confia em você. As duas direções têm lógica, têm risco e têm recompensa. O que não tem lógica é ficar parado, achando que o mercado onde você está hoje vai ser suficiente para sempre. Se o seu produto tem musculatura para competir na Europa, alguém vai ocupar esse espaço. A questão não é se vai acontecer. É se vai ser você ou o seu concorrente. Eu prefiro sempre ser o primeiro a chegar.



