Silvana Pampu
HRBP General Manager Renault Latam, fundadora do Instituto Connect, conselheira, investidora anjo, coaching e coautora dos Livros "Meu Legado" e "Employee Experiencie". Entusiasta do desenvolvimento humano e temas ligados à inovação.
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Quando o Batman vira aula de liderança: o executivo que ensina o mundo corporativo com cultura geek
Há uma cena de "Interstelar" em que o protagonista, preso na gravidade de um planeta distante, descobre que cada hora ali equivale a sete anos na Terra. Quando voltou à nave, quem ele amava envelheceu sem ele. Para a maioria das pessoas, é ficção científica. Para Thiago Yamabuchi, é a melhor metáfora possível sobre o preço invisível das escolhas profissionais, sobre trocar presença por promoção, saúde por projeto, tempo com a família por uma estabilidade que parece sempre mais urgente.
Yamabuchi, mestre, executivo de inovação na Renault, ex-Embraer e professor de MBA, tem feito justamente isso nos últimos meses: pegar ícones que todo mundo reconhece, Mario, Matrix, Mortal Kombat, James Bond, e transformá-los em portas de entrada para conversas sérias sobre comportamento humano, inovação, carreira e o mundo corporativo. O canal, batizado de Conexialismo, parte de uma premissa simples: o conhecimento não mora apenas nos livros de gestão ou nas salas de aula caras. Ele está espalhado pela cultura que já consumimos por prazer, só raramente paramos para enxergá-lo.
A aprendizagem disfarçada de entretenimento
A ideia de usar o popular para ensinar o complexo não é nova, e o Brasil tem bons exemplos. O Nerdologia, criado pelo biólogo e pesquisador Atila Iamarino com os fundadores do Jovem Nerd, virou referência ao explicar ciência a partir de super-heróis e games. O canal Pirula popularizou biologia e pensamento crítico para milhões. Schwarza, do Poligonautas, levou astronomia e filosofia a um público que jamais abriria um artigo acadêmico. O que une esses nomes é a aposta de que a curiosidade é democrática: as pessoas querem aprender, desde que alguém traduza o difícil para a linguagem do cotidiano.
O trabalho de Yamabuchi se encaixa nessa tradição, mas ocupa um espaço ainda pouco explorado. Enquanto a maior parte da divulgação de qualidade no país se concentra nas ciências naturais, ele mira o território onde a maioria dos profissionais passa a vida: o trabalho, a liderança, as decisões de carreira, os vieses que governam nossas escolhas sem que percebamos. E faz isso de dentro, não como consultor que observa o mundo corporativo de fora, mas como alguém que vive a rotina de um executivo de inovação e leva para casa, à noite, a vontade de entender por que as pessoas agem como agem.
O método: um ícone, uma tese, uma reflexão
A mecânica dos vídeos é quase sempre a mesma, e é nela que mora o charme. Um jogo ou filme conhecido abre a conversa. Em seguida, um dado verificável ou um conceito de algum pensador, Sêneca sobre o tempo, Kahneman sobre os atalhos da mente, Clayton Christensen sobre porque empresas geniais quebram, dá densidade ao argumento. No fim, uma pergunta que fica ecoando depois que o vídeo acaba.
Quando fala de Tomb Raider, por exemplo, Yamabuchi parte de um detalhe curioso: nos jogos clássicos, Lara Croft tinha munição infinita. O que matava a jogadora nunca era falta de bala, eram as armadilhas que ela não via chegar. A ponte com o mundo real é imediata e desconfortável: a Kodak inventou a câmera digital e faliu segurando o filme; a Blockbuster pôde comprar a Netflix e recusou. Todas tinham o recurso. Faltou ler o ambiente a tempo. Em menos de um minuto, um jogo dos anos 1990 vira uma aula sobre inovação e cegueira corporativa.
Esse é o ponto que diferencia o projeto de uma simples lista de curiosidades. Não se trata de "fatos legais sobre games", mas de usar o familiar como anzol para uma reflexão que o espectador leva para a própria vida. É educação que não tem cara de educação, e talvez por isso funcione com quem já desistiu de aprender pelos canais tradicionais.
Por que isso importa
Vivemos um tempo em que a atenção é disputada aos segundos e em que a desinformação se espalha mais rápido que o conhecimento checado. Nesse cenário, criadores que se dispõem a traduzir temas relevantes com honestidade prestam um serviço que vai além do entretenimento. Yamabuchi faz questão de fugir do tom de "coach motivacional", não promete fórmulas de sucesso nem frases de efeito vazias. Prefere o caminho mais difícil: apoiar cada ideia em pesquisa real e em pensadores sérios, mantendo a linguagem acessível o suficiente para caber entre um vídeo de humor e outro de dança no feed de qualquer pessoa.
Há algo de professoral nesse esforço, e não por acaso. Como docente de MBA, ele conhece a diferença entre informar e fazer alguém realmente pensar. A diferença está menos no conteúdo e mais na ponte, na capacidade de ligar o que a pessoa já ama ao que ela ainda não sabe que precisa entender. Um aluno de 22 anos ambicioso e um executivo de 50 anos cansado podem assistir ao mesmo vídeo sobre o Mandalorian e sair com reflexões diferentes sobre identidade, hábito e as escolhas que constroem, silenciosamente, quem nos tornamos.
No fim, a aposta de Yamabuchi é quase filosófica: a de que se pode aprender em qualquer lugar, inclusive, e talvez principalmente, nos lugares onde menos esperamos. Numa fita de Tomb Raider, num corredor giratório de "A Origem", numa frase dita por um caçador de recompensas mascarado. Basta alguém disposto a apontar, com simplicidade e rigor, o que sempre esteve ali. É uma forma de lembrar que a cultura que nos diverte também pode nos formar, desde que paremos, por um instante, para olhar com outros olhos.
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