Silvana Pampu
HRBP General Manager Renault Latam, fundadora do Instituto Connect, conselheira, investidora anjo, coaching e coautora dos Livros "Meu Legado" e "Employee Experiencie". Entusiasta do desenvolvimento humano e temas ligados à inovação.
Connect Executive Hub
Muito além do Direito: o real papel dos executivos do Departamento Jurídico
O que se espera hoje de um executivo de Departamento Jurídico? Se a resposta ainda estiver concentrada apenas em profundo conhecimento da legislação, gestão de contratos, administração de processos e capacidade de identificar riscos, talvez se esteja olhando para uma função que já mudou. Evidentemente, a excelência técnica continua sendo premissa para qualquer profissional da área. A diferença é que, dentro das empresas, apenas conhecer muito de Direito já não é suficiente para quem pretende participar efetivamente das decisões e contribuir para os resultados do negócio.
Essa mudança começa justamente no momento em que o advogado amplia seu campo de visão. Quando o Jurídico sai do próprio departamento e passa a conhecer o produto, o cliente e o consumidor final, compreendendo o funcionamento de outras disciplinas e, principalmente, atuando de forma próxima das áreas de negócio, o advogado passa de figurante a protagonista da estratégia dos negócios, compreendendo o peso e o impacto de cada “não” ou sugestão de novo caminho fornecido.
Não se trata de deixar de analisar riscos ou flexibilizar a técnica para atender aos interesses comerciais, mas de compreender suficientemente o negócio para encontrar alternativas juridicamente seguras que também façam sentido sob a perspectiva empresarial.
A partir do momento em que o foco NO cliente passa para a perspectiva do foco DO cliente, o advogado corporativo consegue ter uma visão empática e estratégica sob a ótica do negócio, compreendendo como produtos e soluções são construídos, garantindo mais elementos para auxiliar a desenhá-los. Quanto mais cedo o Jurídico participa das decisões, maior é a sua capacidade de contribuir para a construção de soluções, dimensionar os riscos e evitar o papel passivo de apenas avaliar juridicamente algo que já foi decidido.
Quando participa desde a concepção, o advogado compreende os objetivos do negócio e formula suas próprias perguntas, em vez de apenas responder ao que lhe foi perguntado, o que permite que mapeie diferentes caminhos para o mesmo resultado. O Jurídico estratégico, portanto, não é aquele que simplesmente diz mais “sim”. É aquele que ajuda a empresa a tomar decisões melhores, habilitando o negócio inclusive quando precisa dizer “não”. Ele pode transformar o histórico de litígios e processos em inteligência preventiva, trabalhando em conjunto com as demais áreas da companhia em planos de ação estratégicos, evitando novos gargalos e mitigando riscos futuros.
Ao mesmo tempo, uma mudança ainda mais profunda acontece com a inteligência artificial. A IA deixou de ser um assunto lateral para se tornar uma referência importante, sendo um ponto de partida da nova liderança jurídica. Isso torna ainda mais urgente a busca por conexões estratégicas, fora da bolha tradicional, aproximando o Jurídico de áreas como tecnologia, negócios e dados, a fim de expandir o repertório do advogado corporativo e redesenhar a própria forma de operar do departamento.
A discussão, contudo, precisa avançar para além do uso da inteligência artificial para pesquisar informações, resumir documentos ou produzir textos. Eliminar atividades manuais, identificar padrões e permitir que a equipe jurídica utilize seu tempo em atividades que realmente demandem análise e julgamento já fazem parte do uso básico da inteligência artificial. O ganho real de eficiência e o retorno sobre o investimento (ROI) acontecem quando a tecnologia é conectada estruturalmente aos processos, bases de dados e fluxos de trabalho da operação jurídica e, por consequência, da empresa. A grande transformação, portanto, está em aproveitar a tecnologia e utilizar a inteligência de dados para redesenhar a rotina do departamento e questionar por que determinados trabalhos ainda são realizados da mesma maneira.
À medida que se torna mais fácil o acesso a informações e a produção de respostas com auxílio da tecnologia, maior também precisa ser a capacidade de analisar criticamente os resultados, pois não se pode correr o risco da terceirização do raciocínio jurídico. Sem conhecimento, repertório e capacidade de julgamento, existe o perigo de o advogado deixar de utilizar a tecnologia como ferramenta e passar a terceirizar a ela o próprio raciocínio crítico e estratégico.
É justamente nesse ambiente que a formação multidisciplinar e as competências humanas ganham ainda mais importância. Apesar de o ensino jurídico tradicional instruir o pensamento dentro de linhas pré-estabelecidas e engessadas, a carreira dentro das empresas exige uma formação que ultrapassa os limites tradicionais do Direito. O advogado corporativo é também um executivo e precisa desenvolver conhecimentos de gestão, finanças, projetos e negócios, além de habilidades como adaptabilidade diante de mudanças de rota do negócio e equilíbrio entre celeridade e qualidade. Adicionalmente, o profissional jurídico dentro de uma empresa depende de inteligência emocional, pensamento crítico e criativo, comunicação e habilidades interpessoais, essenciais para uma entrega jurídica de qualidade e para o direcionamento do uso da inteligência artificial.
Talvez esteja aí uma das aparentes contradições deste novo momento da advocacia corporativa. Nunca tivemos tanta tecnologia disponível para apoiar nosso trabalho e, ao mesmo tempo, nunca foi tão importante desenvolver habilidades profundamente humanas. Saber ouvir, negociar, comunicar riscos de maneira simples, compreender a perspectiva de outra área e lidar com diferentes interesses são habilidades que não substituem o conhecimento técnico, mas determinam cada vez mais a capacidade de fazer com que ele produza resultado.
A transformação já começou. O Direito continuará sendo a principal formação, a especialidade e a base técnica que legitima a atuação do advogado corporativo. Contudo, a capacidade de gerar valor ao negócio dependerá cada vez mais de tudo aquilo que o executivo jurídico conseguir aprender além dele.
Ampliar capital relacional e repertório
Essa foi uma das propostas da parceria realizada entre o Connect Executive Hub e a Benner. Um jantar intimista no Palacete do Batel, coração de Curitiba, justamente para pausar as agendas intensas e provocar conversas intencionais. Essa é a missão do Connect, ampliar espaços, gerar experiencias e provocar sair dos minimundos para dar voz aos executivos. Inclusive para você que está lendo, quais são os ambientes que atualmente circula, eles têm sido relevantes e instigantes? Essa reflexão é necessária, para que sua voz ecoe em novos espaços e que sua presença seja marcante e um diferencial em novas mesas.
“Jantar incrível, em um ambiente que reuniu os melhores ingredientes: pessoas, boas conversas e conexões de alto nível. Ouvir e trocar percepções sobre negócios e Direito com grandes executivos jurídicos foi uma experiência extremamente enriquecedora. Esse intercâmbio amplia nossa visão de mercado e fortalece nosso papel como empresa que fomenta mudanças e propõe transformações para todo o segmento.” Bruno Figueiredo Enterprise Jurídico na Benner.
SOBRE O CONNECT EXECUTIVE HUB
O Connect Executive Hub é uma confraria de executivos que reúne C-levels, diretores, conselheiros, empresários e lideranças em diferentes estados brasileiros e países. Por meio de encontros, experiências, fóruns e jornadas de desenvolvimento, aproxima repertórios diversos e transforma relações qualificadas em capital relacional, aprendizagem e novas possibilidades de decisão.
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Em especial dois novos programas



