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A consistência mora nos dias comuns, quando ninguém vê, mas é exatamente ali que o resultado começa a acontecer. Crédito: Imagem gerada por IA (Google Gemini).

Allan Costa

Allan Costa

Allan Costa é empreendedor, investidor-anjo, mentor, escritor, motociclista e palestrante em dois TEDx e em mais de 100 eventos por ano. Co-fundador do AAA Inovação, da Curitiba Angels e Diretor de Inovação da ISH Tecnologia. Mestre pela FGV e pela Lancaster University (UK), e AMP pela Harvard Business School.

Você, Amanhã

O processo que importa

14/04/2026 11:40
A gente gosta de olhar para a vida como uma sequência linear de grandes marcos. Quando vira o ano, quando terminamos a graduação, quando nos casamos, quando encerramos um ciclo… É quase como uma catarse coletiva quando algo termina e outra coisa começa.
Eu diria que, se fôssemos desenhar, a vida está mais para uma sequência de ondulações: ora muito altas, ora medianas, ora mais baixas, às vezes até linhas retas. Como uma estrada mesmo.
Entendo que o início e o final não são linhas de chegada, necessariamente, mas parte de um processo maior. E, como já falamos anteriormente por aqui, quem define a sua linha de chegada é você.
O encerramento de uma etapa não representa uma linha de chegada, assim como o início de outra não garante absolutamente nada muito majestoso. Entre esses dois pontos existe um intervalo que quase ninguém romantiza, mas é exatamente onde as coisas acontecem: a repetição.
Chata, é verdade. É pouquíssimo prazeroso fazer todos os dias a mesma coisa, sem a certeza de quando — ou se — aquilo que se espera vai acontecer. Mas é na chatice, na teimosia implacável de levantar todos os dias e fazer o que tem que ser feito, que o resultado vem.
Ou alguém aqui acha que um atleta de alta performance acorda um dia e vai competir? São anos de preparação cansativa que, na maioria dos dias, não trazem nenhum grande resultado. Mas não tem segredo. Para correr uma maratona, você precisa primeiro conseguir completar o primeiro quilômetro, depois o segundo, e assim por diante.
A consistência é chata porque não tem glamour nenhum em fazer repetidamente a mesma coisa, sem ninguém olhando, sem aplausos e sem confete. E sem post bonito no Strava por correr o primeiro quilômetro sem colocar os bofes pra fora.
E acho que é aqui que a maioria das pessoas se perde. Ao ver que o caminho não é curto e que não há nenhuma emoção em fazer mil vezes a mesma coisa, você pode acabar se sentindo tentado a comprar soluções simplistas e fórmulas mágicas de gente que jura que fez o que você fez sem esforço nenhum.
É importante saber que, ao longo do seu trajeto, sempre surgirão distrações. Seja uma coisa mais legal para fazer, seja algum coach te vendendo solução para um problema que ele nunca enfrentou. Sempre haverá um esperto tentando ganhar dinheiro com a sua pressa.
E é por isso que tanta gente boa desiste. Não porque falta capacidade, mas porque não aguenta o intervalo entre o esforço e o retorno.
E, se você der valor demais à velocidade, certamente vai se perder do resultado.
A consistência exige clareza e foco, algo cada vez mais escasso. Sem um foco claríssimo, toda oportunidade é imperdível, toda possibilidade é única, todo vídeo curto parece urgente de ser visto. E, mais importante, toda dificuldade parece motivo para mudar o rumo.
É aí que a consistência faz a mágica: se você só continuar seguindo o plano, fica mais fácil ignorar as distrações, que são inevitáveis, no fim das contas. E também fica mais fácil suportar a lentidão do processo sem contar com a tão falada "motivação”.
Não existe motivação nem empolgação que dure mais do que alguns meses. O que existe é um acúmulo invisível de dias comuns, de tarefas repetidas, de pequenas decisões que, isoladamente, parecem irrelevantes.
E aí, um dia, de maneira totalmente inadvertida, você olha para trás e percebe o tanto de caminho que já foi percorrido, simplesmente porque os passos chatos e entediantes foram dados de maneira permanente.