
Rucelmar Reis
Rucelmar Reis é empreendedor, com vasta experiência em tecnologia e negócios digitais. Fundador e sócio de diversas empresas, atua como mentor e conselheiro de startups. Formado em ESADE Barcelona e MIT, une visão estratégica e prática no desenvolvimento de negócios.
Na Veia
Quando a ousadia do fundador vira a própria trava
Tenho visto muitos empresários falando que sua empresa tem controle e que ele sabe exatamente o que está acontecendo. Por outro lado, na mesma frequência, ouço empresários dizendo que ganham dinheiro, mas ficam inseguros em dar os próximos passos, justamente pela falta de dados e controles.
Vamos dividir esses sentimentos para ver se conseguimos mapear o que acontece. De uma forma geral, o empresário raiz aceita a conformidade, mas instintivamente rejeita a governança tradicional. Ele sabe que distribuir decisões em ritos, fóruns e comitês engessados pode matar a liberdade de decidir que o trouxe até aqui. Se os fundadores fossem brutalmente sinceros, os quadros de "Missão, Visão e Valores" em suas salas seriam bem diferentes dos manuais de RH. Seria algo assim, e poucos divulgariam:
- Missão: Ganhar dinheiro com meu negócio e provar para mim mesmo que sou capaz de montar algo promissor.
- Visão: Dar certo, ser grande e ser bem-sucedido.
- Valores: Lucro em primeiro lugar. Depois, busco a conformidade, se der, e se não me deixar menos competitivo, atrapalhando o jogo.
Essa falta de sinceridade não é cinismo; é necessidade do motor do crescimento. O "caos lucrativo" de quem está na trincheira decidindo no "feeling" é o que faz a roda girar. Foi assim que tudo começou e se manteve.
No entanto, o lucro nesse estágio é muitas vezes um "lucro apesar de". O negócio prospera apesar de algumas ineficiências, porque a visão e a oportunidade são maiores que os erros. Mas por que tantas empresas com gestão muito centralizada e pouco profissional conseguem chegar a bilhões de faturamento? Não é sorte pura, nem competência pura: é uma combinação de fatores estruturais que sustentam o crescimento apesar das fragilidades de gestão.
Primeiro fator, podem ser ventos de cauda macroeconômicos: quando o mercado inteiro cresce 15-20% ao ano, até empresas mal geridas surfam a onda. O fundador confunde crescimento do mercado com competência própria.
Segundo, barreiras de entrada: concessões, licenças, controle de ativos escassos ou vantagem de first-mover criam fossos competitivos que protegem a empresa por anos, mesmo com gestão amadora. Ser primeiro, às vezes dá uma vantagem difícil de ser vencida para a concorrência.
Terceiro, o próprio paradoxo da centralização: nos estágios iniciais, decisões rápidas e visão unificada do fundador são uma vantagem real. O que funciona com 50 pessoas simplesmente não funciona com 5.000, mas entre o ponto em que a centralização começa a prejudicar e o ponto em que a empresa de fato entra em crise podem se passar 10 a 15 anos de faturamento crescente, criando a ilusão de que o modelo funciona.
Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia, ao analisar o "Built to Last" de Collins e Porras, argumentou que boa parte do sucesso de empresas duradouras é regressão à média disfarçada de excelência gerencial. Trocando em miúdos: quando os ventos mudam, a empresa que confundiu conjuntura com competência descobre que os “botões” que eram apertados antes deixam de funcionar no painel de gestão centralizada. O que parecia ser excelência gerencial era, na verdade, o mercado carregando o negócio nas costas.
Essa não é uma observação apenas teórica. Ao longo da minha trajetória profissional, atuei dentro de empresas que faturavam bilhões de reais por anos e que, por dentro, operavam com níveis surpreendentemente baixos de maturidade em controles, governança e descentralização de decisões. Eram organizações gigantes sustentadas pela força da visão do fundador, por vantagens competitivas estruturais e por mercados em expansão, não por processos sofisticados. Essa vivência me mostrou, na prática, que o tamanho do faturamento não é prova de excelência gerencial: muitas vezes é apenas evidência de que as condições externas foram generosas o suficiente para compensar as fragilidades internas. E é exatamente quando essas condições mudam que a conta chega.
O desafio, portanto, é transformar esse fôlego em um "lucro por causa de", onde a estrutura potencializa o resultado em vez de apenas ser carregada por ele.
Três pilares da realidade empresarial
Para evoluir, se quiser, o empresário precisa entender as forças que sustentam seu sucesso atual e onde elas escondem armadilhas para a perenidade. O sucesso é o equilíbrio entre essas forças:
1. O "caos lucrativo" vs. "controle estéril"
O contraste é visível no mercado. De um lado, empresas de tecnologia que adotam o Blitzscaling (priorizar a velocidade sobre a eficiência em cenários de incerteza). Elas crescem a velocidades extraordinárias e conquistam mercados inteiros, mesmo com processos internos caóticos. Como Reid Hoffman e Chris Yeh descrevem no livro "Blitzscaling" (2018), essas empresas sacrificam eficiência e rentabilidade de curto prazo em nome da velocidade, apostando que a escala e os efeitos de rede compensarão o investimento no longo prazo. O lucro não pode ser minimizado, mas ele não deve ser o álibi para a ineficiência que, no futuro, deve cobrar seu preço.
Do outro lado, temos o "Controle Estéril". Pesquisas de Gary Hamel e Michele Zanini (London Business School / Management Lab) estimam que, se a carga burocrática nas economias da OCDE fosse reduzida pela metade, o ganho seria de cerca de US$ 9 trilhões em produção econômica. Bancos com governança plena (IBGC) e comitês para cada vírgula muitas vezes operam no prejuízo porque a burocracia virou um fim em si mesma, sufocando a agilidade. Eu vi isso na prática acontecendo.
2. Hipocontrole vs. hipercontrole
O "feeling" do empresário (hipocontrole) é o que permite a agilidade e a inovação. É o que a Bain & Company chama de "Founder's Mentality" (Mentalidade do Fundador). Segundo o estudo da Bain com milhares de empresas, aquelas que mantêm os traços do fundador, foco no cliente, obsessão pela linha de frente e senso de insurgência; geram retornos aos acionistas 3 vezes maiores do que os pares, segundo dados da Bain desde 1990. A pesquisa também aponta que apenas 1 em cada 9 empresas consegue sustentar crescimento lucrativo por mais de uma década, e 85% dos executivos atribuem essa perda de fôlego a fatores internos, não externos. Ou seja, a empresa não para de crescer porque o mercado secou: ela para porque a complexidade interna sufocou o que a fazia ágil.
O problema é o hipercontrole: quando a governança é imposta de fora para dentro, sem conexão com o negócio, ela mata essa alma. O segredo da perenidade não é trocar a ousadia pela regra, mas criar uma "Estrutura Mínima Viável" que proteja o lucro sem engessar o dono. Felizmente, já vejo isso acontecendo com uma parte dos fundadores de empresas.
O problema é o hipercontrole: quando a governança é imposta de fora para dentro, sem conexão com o negócio, ela mata essa alma. O segredo da perenidade não é trocar a ousadia pela regra, mas criar uma "Estrutura Mínima Viável" que proteja o lucro sem engessar o dono. Felizmente, já vejo isso acontecendo com uma parte dos fundadores de empresas.
3. A "religião" do fundador
Em negócios de hipercrescimento, a visão do dono é a única bússola. As pessoas não seguem processos; elas seguem uma "religião", uma servidão baseada em propósito e carisma. Esse poder gera um nível de sacrifício que nenhuma regra de compliance consegue replicar.
Contudo, a perenidade exige que essa "religião" evolua para uma Cultura de desempenho. Se a empresa depende 100% do carisma do líder para funcionar, ela não é um negócio, é um culto. E cultos morrem com seus líderes. O lucro real e duradouro vem de transformar a "fé" em sistemas que funcionem mesmo quando o fundador não está na sala.
Contudo, a perenidade exige que essa "religião" evolua para uma Cultura de desempenho. Se a empresa depende 100% do carisma do líder para funcionar, ela não é um negócio, é um culto. E cultos morrem com seus líderes. O lucro real e duradouro vem de transformar a "fé" em sistemas que funcionem mesmo quando o fundador não está na sala.
A lei de Conway
Um conceito fundamental para entender essa trava é a Lei de Conway, formulada pelo cientista da computação Melvin Conway em 1967 e popularizada por Fred Brooks em "The Mythical Man-Month". Conway observou que as organizações produzem sistemas que são cópias fiéis de suas estruturas de comunicação. Embora a lei tenha sido formulada no contexto de engenharia de software, sua lógica se aplica com força a qualquer empresa: o negócio como um todo é um "sistema" moldado pela forma como as pessoas se comunicam e decidem dentro dele. No caso de uma empresa liderada por um fundador centralizador, o "sistema" (o negócio) será um reflexo direto de sua capacidade de processamento mental.
Quando a empresa cresce, a complexidade interna aumenta exponencialmente. Se o fundador continua sendo o único ponto de decisão, ele se torna o gargalo. A ousadia que o levou até ali agora é a causa da "Inflação de complexidade": o esforço para manter o negócio rodando cresce mais rápido que o valor gerado. O lucro continua existindo, mas ele é "lucro apesar de" um dono que não consegue mais soltar as rédeas. E se soltar, a carroça sai do caminho.
Quando a empresa cresce, a complexidade interna aumenta exponencialmente. Se o fundador continua sendo o único ponto de decisão, ele se torna o gargalo. A ousadia que o levou até ali agora é a causa da "Inflação de complexidade": o esforço para manter o negócio rodando cresce mais rápido que o valor gerado. O lucro continua existindo, mas ele é "lucro apesar de" um dono que não consegue mais soltar as rédeas. E se soltar, a carroça sai do caminho.
O dilema da perenidade
Em seu clássico "Built to Last" (1994), Jim Collins e Jerry Porras destacam que as empresas visionárias estudadas, com idade média de quase 100 anos, são aquelas que conseguem preservar o núcleo (a essência do fundador) enquanto estimulam o progresso (a estrutura profissional). O fundador intempestivo muitas vezes confunde "preservar o núcleo" com "manter o controle absoluto".
O momento em que o fundador não tem mais opção e precisa buscar novas formas de gerir é quando o risco deixa de ser um aliado da oportunidade e passa a ser uma exposição que ameaça o patrimônio construído. É o momento de decidir se você quer ser o dono de um castelo de areia que brilha ao sol hoje, mas desmorona na primeira maré alta, ou o arquiteto de uma fortaleza perene, que passará por gerações.
O momento em que o fundador não tem mais opção e precisa buscar novas formas de gerir é quando o risco deixa de ser um aliado da oportunidade e passa a ser uma exposição que ameaça o patrimônio construído. É o momento de decidir se você quer ser o dono de um castelo de areia que brilha ao sol hoje, mas desmorona na primeira maré alta, ou o arquiteto de uma fortaleza perene, que passará por gerações.
O teste da relevância do caos
Mas, se você é um fundador de empresa e está lendo esse artigo, como saber se você ainda precisa da informalidade de decisões ou se ela está te matando? Use a Matriz de Tração:
Sincronia de autoridade
A transição da informalidade para a perenidade não exige uma governança de manual. Exige o que chamamos de Sincronia de autoridade:
- Identificar o "lucro apesar de": Mapear onde a ineficiência está drenando recursos que poderiam ser reinvestidos em escala.
- Descentralização controlada: Criar fóruns de decisão que não dependam do dono, mas que sigam a sua "visão" (a religião transformada em princípios).
- Profissionalização da linha de frente: Investir em lideranças que tragam novas visões, respeitem o que foi construído, mas que tenham a coragem de questionar o fundador, protegendo o negócio de decisões intempestivas.
O desafio para o empresário de sucesso é entender que profissionalizar não é "perder o poder", é escalar a sua visão. Se um processo de profissionalização significar a retirada de poderes essenciais do fundador, provavelmente ele foi mal-conduzido. Valorize o lucro que você gera hoje, mas construa a estrutura que garantirá que esse lucro não seja apenas um acidente de percurso, mas o resultado de um negócio perene.
A pergunta final que precisa ser respondida com toda sinceridade pelo fundador: Você está construindo um império que sobrevive a você, ou um monumento ao seu ego e à sua própria necessidade de controle?



