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Previsão de Elon Musk sobre o fim da programação levanta debates sobre energia, governança e o futuro do trabalho em tecnologia. Crédito: metamorworks.

Rucelmar Reis

Rucelmar Reis

Rucelmar Reis é empreendedor, com vasta experiência em tecnologia e negócios digitais. Fundador e sócio de diversas empresas, atua como mentor e conselheiro de startups. Formado em ESADE Barcelona e MIT, une visão estratégica e prática no desenvolvimento de negócios.

Na Veia

A previsão mais perturbadora dos últimos dias

18/02/2026 09:00
Elon Musk não é conhecido por meias palavras. E sua mais recente profecia é um golpe direto na indústria de tecnologia: "A programação morre este ano." Não é uma evolução, não é uma adaptação e nem uma forma diferente de programar. É um fim. Uma declaração que dessa vez tem tudo para ser verdade. E é isto que assusta. O que ele disse é taxativo: até dezembro, a Inteligência Artificial não precisará mais de linguagens de programação. Ela gerará código de máquina diretamente, binário otimizado além de qualquer coisa que a lógica humana poderia produzir. Sem tradução. Sem compilação. Apenas execução pura.

O fim da torre de Babel digital: adeus, sintaxe e compiladores

Por décadas, a programação foi a nossa "Torre de Babel" digital. Cada linguagem – Python, C++, Java – era um dialeto, um conjunto de regras complexas que precisávamos dominar para nos comunicar com as máquinas. O compilador era o nosso tradutor, transformando nossa sintaxe em algo que o hardware pudesse entender. Era um "imposto" que pagávamos pela fricção entre o pensamento humano e a execução da máquina. O programador era o coletor de impostos, o ser iluminado, preso dentro das salas de vidro, e com a capacidade de escolher os melhores comandos e sintaxes para que as máquinas recebessem as melhores instruções.
Em meu artigo, "Vibe Coding: 'Haja Luz' é apenas para seres divinos!", alertei sobre os perigos de delegar a criação de software à IA sem o rigor da engenharia, gerando dívida técnica e vulnerabilidades. Agora, Musk leva essa discussão a um patamar ainda mais radical. Ele afirma que a IA se tornou tão fluente em "humano" que o imposto da sintaxe acabou. A máquina não precisa mais de nossos "idiomas" de programação. Ela fala diretamente o binário, o código de máquina otimizado, tornando o programador humano, o compilador e as linguagens intermediárias completamente obsoletos.
Você nem se dá ao trabalho de programar.
Elon Musk

Neuralink: da imaginação ao software – o pensamento se torna executável

E a revolução não para por aí. Conecte essa capacidade da IA com a visão da Neuralink. Sem sintaxe. Sem teclado. Sem tela. A interface final não é mais a voz, nem o toque, mas o próprio pensamento. Exato. Pensamento. Aquela frase dita pelos coaches de que basta mentalizar que as coisas acontecem... então, agora isso pode ser mais do que verdadeiro.
Da imaginação para o software.
Elon Musk
O pensamento se torna executável. Você imagina um resultado, o sistema o projeta e o compila em realidade instantaneamente. Não estamos automatizando a programação. Estamos, como Musk sugere, apagando-a da existência. A profissão inteira colapsa em um pensamento. Décadas de treinamento reduzidas à irrelevância. A distância entre ideia e materialização vai a zero. Só isso já seria impactante. Mas vem mais coisa!

O custo da imaginação sem filtro

Mas há uma camada de realidade que se impõe sobre a utopia (ou distopia) de Musk: a econômica. As falas de Musk são uma ameaça existencial não apenas para a profissão de programador, mas para o próprio modelo de lucro das Big Techs e de empresas que investem cegamente em IA. A infraestrutura necessária para sustentar essa "imaginação executável" é colossal, e o retorno sobre o investimento ainda é uma incógnita.
Se o "imposto da sintaxe" está morto, o "imposto da energia e do silício" pode ser o novo e intransponível fator limitante. As "alucinações" que mencionei anteriormente não são apenas um perigo ético; elas são um desperdício brutal de capital. Materializar delírios sem filtro significa queimar bilhões em processamento para gerar nada, ou pior, para gerar passivos de segurança e reputação. A bolha da "histeria coletiva" em torno da IA, pode estourar se a materialização da imaginação não se traduzir em valor real e sustentável. Não vou entrar nem no mérito sobre as questões comportamentais e antropológicas que podem advir de um acontecimento desses.

O fim dos processos? Sem ordem, haverá progresso?

E se a programação morre, o que acontece com os processos? Se já era um desafio condicionar trabalhos complexos a metodologias robustas – como o S-SDLC que defendi no artigo sobre Vibe Coding – em uma era de imaginação e execução imediata, a própria noção de processo parece obsoleta. Como auditar, validar, testar ou governar algo que nasce diretamente do pensamento e se materializa em binário otimizado, sem etapas intermediárias visíveis ou controláveis?
A distância entre ideia e materialização vai a zero.
Essa ausência de fricção, que Musk celebra, é também a ausência de um tempo de maturação, de revisão, de um método. Sem ordem, haverá progresso? Ou apenas um caos de criações efêmeras, vulneráveis e financeiramente insustentáveis? A materialização instantânea da imaginação, sem o filtro da sintaxe, da engenharia e agora, dos processos, nos leva a um cenário onde a "erva daninha" pode proliferar sem controle, tanto no código quanto nas finanças.

O perigo da imaginação sem filtro

Essa mudança de fase do jogo da vida abre uma caixa de Pandora ética e existencial. Se a distância entre a ideia e a materialização vai a zero, o que acontece com os delírios mentais? Com as alucinações? Com os pensamentos mais sombrios ou simplesmente irrefletidos? Se antes a fricção da programação, a necessidade de traduzir uma ideia em código, servia como um filtro natural, uma barreira para a materialização instantânea de qualquer pensamento, agora essa barreira desaparece.
Não conseguimos minimamente controlar o acesso à informação e a ética no uso de IA hoje. Imagine quando os frutos da IA forem a própria imaginação, sem filtro, puramente vindo de possíveis alucinações em meio a coisas sérias. Como separar a "erva daninha" do "planta saudável"? Como garantir que a materialização instantânea da imaginação não leve a um caos digital e, por extensão, real, onde a realidade é moldada por impulsos e pensamentos sem crivo social?
Se isso realmente acontecer, então... Bem-vindo a um mundo onde o fator limitante não é habilidade, recursos ou tempo. É se você consegue visualizar com clareza suficiente o que quer para que uma máquina o traga à existência. Mas a clareza da visão, agora, carrega um peso ético e econômico sem precedentes. O futuro não é apenas sobre o que podemos criar, mas sobre o que devemos permitir que seja criado, e a que custo.