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O papel dos conselhos empresariais no “pós-pandemia”

Sergio Alexandre Simões*

Liderança

O papel dos conselhos empresariais no “pós-pandemia”

27/01/2022 19:53
O avanço da vacinação, que leva à queda no número de casos e, consequentemente, à reabertura do comércio e dos serviços, dá indicativos de que a pandemia de Covid-19 “começa a ser superada”. Certo, contudo, é que nenhuma organização sairá ilesa do cenário que vivenciamos nos últimos tempos. Nessa conjuntura, os conselhos empresariais são remodelados, assumem papéis diversos do que vinham exercendo.
A pesquisa Board Transformation 2021, desenvolvida pela revista Board Agenda e pela consultoria Mazars em parceria com a Henley Business School, divulgada recentemente e conduzida junto a 270 líderes empresariais, destacou cinco pontos fundamentais aos quais os boards devem se atentar no pós-pandemia, que julguei bastante interessantes: resiliência organizacional, estratégia de negócios e habilidades, transformação digital, financeira e de capital, ESG e cultura organizacional.
Se há algo que a crise sanitária nos ensinou foi, sem sombra de dúvidas, que os negócios precisam ser adaptáveis. Tradicionalmente, os planos que envolvem a recuperação das empresas após momentos de dificuldade são reativos. É claro que essas práticas ainda têm seu valor, mas elas não são mais suficientes. Mais do que ultrapassar momentos desafiadores, concentrando-se no presente, os conselhos devem guiar as empresas na reformulação das prioridades de longo prazo, antevendo que dificuldades podem surgir no percurso e desenhando possibilidades para diversos contextos.
Outro ponto para o qual a pandemia jogou luz diz respeito às habilidades dos conselheiros. 48% dos respondentes do levantamento Board Transformation 2021 concordam com a afirmação de que a transformação imposta aos negócios em razão da pandemia levou os boards a analisarem as habilidades e expertise dos seus membros. Para muitos entrevistados, o agora é, justamente, o momento certo para revisar as capacidades do conselho. E digo mais: quanto mais diversas forem as capacidades dos advisors, assim como seus perfis, maiores as chances de sucesso.
Também não há como falar em pós-pandemia sem abordar a transformação digital, que 74% dos respondentes da pesquisa da Board Agenda concordam que foi acelerada nas companhias, com o respaldo dos conselhos, durante a crise sanitária. Para os executivos consultados, o trabalho remoto – ou, ao menos, híbrido – se tornou uma realidade que não tem mais volta, assim como as reuniões virtuais dos conselhos. Em tal conjuntura, o principal desafio das lideranças empresariais está ligado à supervisão do trabalho realizado por todo o time, que deve ser equilibrado com a confiança na equipe para que o gerenciamento não se torne autoritário, com a imposição de uma cultura de vigilância.
Relacionada de forma intrínseca à transformação digital está a transformação de capital, vez que cada vez mais serão usados dados financeiros para capturar tendências e prever cenários futuros, impactando radicalmente o planejamento e tomada de decisões dos conselhos. Na pesquisa citada, metade dos participantes afirmaram que a pandemia levou o board a realizar mudanças de longo prazo quanto à liquidez, crédito e capital necessários à organização.
Por fim, mas não menos importante, com base no conceito de “reconstruir melhor”, as organizações se voltam às questões ambientais, sociais e de governança (ESG) com mais ênfase do que nunca, motivadas pelo fato de que a crise sanitária escancarou desigualdades. Não basta ser reativo às insatisfações da sociedade; o conselho precisa ter uma postura proativa perante todos os stakeholders para superar os desequilíbrios que se apresentam. Liderança e cultura corporativa que prezam pelo trabalho em conjunto e pela transparência serão cruciais para as empresas do futuro.
Essas, é claro, são apenas algumas questões essenciais para os conselhos no pós-crise - e que identificamos facilmente com uma avaliação de efetividade do colegiado. Mas se há algo que os últimos 18 meses nos mostraram foi que nada é estático. Essa lista, portanto, não é exaustiva. Do dia para a noite, literalmente, como vimos em março de 2020, o mundo pode virar de cabeça para baixo. E precisamos estar sempre preparados.
*Sergio Alexandre Simões é conselheiro e líder da prática de Boards Services na EXEC, consultoria de capital humano especializada em recrutar e desenvolver executivos, conselheiros e organizações. Doutorando em transformação digital de PMEs na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), atua há mais de 25 anos com projetos de estratégia, tecnologia e consultoria digital em diversos segmentos do mercado no Brasil e no exterior.

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