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As healthtechs têm a desafiadora missão de inovar em um mercado extremamente regulado e conservador: o mercado da saúde.

Vitor Milano*

Startups de Saúde

O papel da área de produto nas healthtechs brasileiras

24/02/2023 18:31
Como podemos definir um produto? Geralmente, pensamos em produto como algo físico, palpável e com formas plenamente definidas. Nas prateleiras do supermercado, existem diversos tipos de produtos: de alimentos veganos a produtos de limpeza para pisos de madeira. Estes exemplos de especificidade são importantes para dizer que um produto precisa atender uma necessidade igualmente específica para a qual existe uma demanda.
Quando vamos ao mercado, temos uma lista de compras à mão. Esta lista não existe à toa. Todos os itens estão ali para atender a uma expectativa: de que o contrafilé esteja macio, de que o alvejante limpe aquela mancha etc. No fim das contas, não estamos comprando apenas um produto, estamos comprando uma expectativa. Certamente, um produto que atenda as nossas necessidades, sem abrir mão da qualidade, mas também com um bom preço.
Embora seja comum pensarmos em um produto como algo necessariamente físico, a definição de produto extrapola esse limite. Produtos são serviços e também podem ser ideias. Afinal, ideias vendem. E como vendem.
Não à toa, existe o jargão popular “comprar uma ideia”, que tem como significado “acreditar na ideia que foi proposta”. A marca Bombril conseguiu incutir algo além do bem material, algo além da palha de aço: eles incutiram a ideia de que o Bombril faz tudo - e mais um pouco.
Os responsáveis por esse slogan criaram um novo conceito. A antiga palha de aço deu lugar ao Bombril. Dessa forma, um novo produto nasceu. E é dessa maneira que a área de produto opera dentro de uma empresa. A área de produtos, portanto, tem papel fundamental também dentro de uma healthtech.

A área de produto

O que é um produto senão o coração de uma empresa? Todas as áreas de uma companhia são importantes, mas o produto de uma empresa age como um coração, bombeando sangue aos demais setores. Se a companhia não tem um produto, o que ela terá para entregar ao mercado?
Por esse enorme motivo, a área de produto não atua em um única frente. É um time multidisciplinar: existe o conhecimento técnico de engenheiros e há também conhecimento de ações humanas pelo time de CX (experiência do usuário). Literalmente, é um time em que todas as áreas de conhecimento agem de maneira conjunta.
O time de gestão de produto traduz, entende ou cria uma necessidade - e a transforma em um produto. Aqui, a voz do consumidor é ouvida. No fim do dia e do mês, grande parte da receita de uma empresa advém do entendimento dessa necessidade. Steve Jobs entendeu muito bem o quanto uma tela 100% touchscreen agregaria às pessoas e ao mercado em si. Hoje, o iPhone não é tão somente um celular, um dispositivo móvel: é uma verdadeira experiência, um símbolo.
Para fechar meu encadeamento de ideias, diria que a área de gestão de produtos atua da mesma forma que um intérprete: ouve, traduz e sintetiza uma necessidade. Dessa forma, gera valor e receita a uma empresa. Na dúvida, dê suporte e forneça insumos para a área de produtos da sua empresa.

Gerindo um produto em uma healthtech

Uma healthtech é uma startup que une saúde com tecnologia (health + tec). De maneira geral, as startups atuam a partir da disrupção, da inovação, mas como dizem por aí: cada um com seu cada qual. As healthtechs têm a desafiadora missão de inovar em um mercado extremamente regulado e conservador: o mercado da saúde. Neste momento, vale lembrar, estou me referindo à área que circunscreve o mercado de saúde brasileiro.
Em todos os tipos de startup, existe uma premissa comum: criar soluções efetivas para um problema recorrente. No caso das healthtechs, a ideia é criar uma solução prática e eficaz para o mercado de saúde.
Posto isto, qual o papel da área de produtos em uma healthtech? Na área de gestão de produtos, além de compreender todos os arcabouços legais existentes em um mercado fortemente regulado e competitivo, precisamos fazer uma leitura de campo a fim de identificar gargalos que não estão sendo integralmente resolvidos. Penoso, mas, ao mesmo tempo, extremamente recompensador.

Criando um produto para uma healthtech [na prática]

A teoria é linda, mas, grande parte das vezes, diz pouco respeito à realidade. Até aqui, esmiucei o que é um produto físico (bem material) e teorizei a criação de um produto e serviço, mas apenas de modo teórico. Também, mostrei como um time de produtos opera no dia a dia e quais são os principais desafios deste setor em toda e qualquer empresa. Agora, vamos à prática.
No Brasil, as healthtechs ainda são uma pequena parcela da inovação, mas o futuro é muito promissor. Entre 2018 e 2020, o número de startups de saúde cresceu em 118%, segundo o estudo HealthTech Report 2020. Como se esses números não fossem suficientemente impressionantes, o levantamento da Liga Ventures e PwC Brasil mostrou que o setor movimentou mais de 1,79 bilhão de reais, entre 2019 e 2022, por conta do impulsionamento originário de investimentos. E o mercado ainda tem muito a crescer.
A saúde suplementar - para quem não faz parte desse universo - é algo que parece pequeno, mas observando de perto, impressiona a imensidão. E o melhor disso tudo: é um mar inteiramente aberto a possibilidades.
Antes de determinar a rota que pretende seguir, certifique-se que a bússola aponta para o norte, pois é fundamental ter um objetivo. Entenda as dores latentes ou pulsantes do setor. Hoje, grande parte das healthtechs procuram sanar problemas que envolvem planos, financiamentos, gestão de processos, exames e diagnósticos.
Para toda sutileza e mínimo detalhe, haverá um campo de atuação possível. No meu dia a dia, meu desafio é a criação e manutenção de um programa que coordena o cuidado de pacientes crônicos, ou seja, aqueles que lidam com diabetes, hipertensão, colesterol alto e obesidade. Parece algo muito específico, e de fato é. Porém, se pegarmos como exemplo apenas o diabetes, são mais de 16,8 milhões de brasileiros que lidam com essa condição de saúde, segundo a Federação Internacional de Diabetes (IDF). São 16,8 milhões de maneiras diferentes de criar um produto único e genuinamente personalizado.
Ter uma ideia inovadora não é algo tão difícil, mas fazer acontecer, dar escala e realmente crescer no setor, isso é raro. E quem executa isso com maestria, que cria um produto verdadeiramente necessário e que atenda às expectativas do mercado e do consumidor se destaca e atinge outros patamares.
*Vitor Milano é especialista em ciências da computação e head de produto na Klivo.

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