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Quando o assunto é tendência, tecnologia e olhar de futuro, miramos países como os Estados Unidos, a China e Israel e pouco buscamos conhecer o que é “feito em casa”.

Marcelo Gripa

Marcelo Gripa

Marcelo Gripa é jornalista, especialista em comunicação corporativa e co-fundador da Futuros Possíveis, plataforma que gera discussões e inteligência sobre futuros.

Ecossistemas de inovação brasileiros

De onde brota a inovação no Brasil?

05/09/2023 20:05
O Brasil é repleto de contrastes, e isso se reflete na forma como enxergamos a inovação. Se, por um lado, somos reconhecidos como um povo criativo, sempre em busca de soluções para resolver problemas de todos os tipos, por outro, custamos a nos reconhecer como inovadores. Quando o assunto é tendência, tecnologia e olhar de futuro, miramos países como os Estados Unidos, China e Israel e pouco buscamos conhecer o que é "feito em casa".
Essa é uma entre tantas provocações presentes no documentário "Ecossistemas da Inovação", lançado recentemente pela Prosa Press e disponível aqui. Dirigido pela jornalista Patricia Travassos, o filme retrata os polos de inovação mais relevantes do Brasil nos quais o futuro está em construção e reúne empreendedores, fundadores de startups e hubs que se dedicam a transformar a realidade do País. Foram mais de 20 mil quilômetros rodados de Norte a Sul, em São Paulo (incluindo as cidades de Campinas e de São José dos Campos), Florianópolis (SC), Manaus (AM), Porto Alegre (RS), Recife (PE) e Santa Rita do Sapucaí (MG).
Como explica o cientista e professor Silvio Meira, um dos entrevistados no documentário, "ao imaginar o futuro, a gente precisa saber que leva tempo para chegar até lá e que esta é uma estrada reversa".
"Inovação é descoberta, não dá pra prever o que pode e vai acontecer”, completa Meira ao ressaltar a importância da adoção de políticas públicas e estratégias para inovar de forma consistente.

O que aprender com os ecossistemas de inovação

São muitos os fatores que contribuem para um ecossistema virtuoso de inovação e, num país tão diverso como o Brasil, as particularidades regionais são a mola propulsora do desenvolvimento. Devido às dimensões territoriais continentais, muitas vezes nem é preciso pensar globalmente para identificar necessidades e tirar ideias do papel.
É o caso do G10 das Favelas, bloco de líderes e empreendedores de impacto social que incentiva o empreendedorismo em comunidades. Um exemplo de inovação implementada localmente é a Favela Brasil Express, empresa de logística que faz entregas de e-commerce em favelas, preenchendo uma lacuna de mercado e chegando aonde Amazon, Mercado Livre e iFood não conseguem.
O contraste marca a forma como o Brasil inova. Em São Paulo, o acesso a recursos financeiros abundantes e infraestrutura de ponta facilita a contratação de mão de obra qualificada; mas, há quem prefira evitar o maior polo de negócios do país. É o caso da startup mineira de recursos humanos Sólides, que valoriza o fato de impactar o ecossistema local e entende ser estratégico manter uma operação longe dos holofotes do eixo Rio-São Paulo.
E o que falar de Santa Rita do Sapucaí, também em Minas Gerais? Com apenas 40 mil habitantes, a cidade reúne 150 empresas de tecnologia no Vale da Eletrônica, abriga universidades e centros de pesquisa e sedia o HackTown, principal festival independente de inovação, tecnologia e criatividade da América Latina. Mais um exemplo de que a roda da inovação também gira no interior.
Em Pernambuco, a história do Porto Digital, o maior parque tecnológico urbano e aberto do país, mostra a conexão da inovação com os desafios locais. O complexo que hoje abriga mais de 350 empresas foi criado no ano 2000 com o objetivo de ser uma política pública para o desenvolvimento do setor de tecnologia da informação no Estado. Revitalizar as ruas do centro histórico também era uma das premissas. Mais de duas décadas depois, a expectativa, agora, é de que saia de lá o primeiro unicórnio do Nordeste, nome dado a empresas que atingem valor de mercado acima de US$1 bilhão.
A região Norte também não tem seu próprio unicórnio, mas está em busca do "botocórnio",  brincadeira feita em referência ao animal típico da região que, por não dormir, é comparado a um empreendedor que precisa estar sempre atento. Criada em 2019 para digitalizar o transporte fluvial, a Navegam comercializa passagens e intermedia fretes em uma região cercada por águas - inovação que pode nem passar pela cabeça de muita gente de outros lugares do país. Antes, todo o processo era feito de forma analógica.
No primeiro ano de operação, a Navegam vendeu apenas cinco passagens, um sinal do tamanho do desafio de mercado que viria pela frente. Em 2022, captou R$ 1,5 milhão e, hoje, simboliza o poder das inovações que podem brotar em qualquer lugar do Brasil.

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