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Ricky RIbeiro é mestre em Sustentabilidade pela Universidade Politécnica da Catalunha (UPC) e MBA Executivo pela Universidade de Barcelona (UB)

Smart City Sessions

Qual o papel da mobilidade acessível em cidades inteligentes? Ricky Ribeiro responde

GazzConecta
03/12/2020 20:32
Calçadas em boas condições, "cidade de quarto de hora" e protagonismo das ciclovias e transporte coletivo. É assim que Ricky Ribeiro, fundador da OSCIP Associação Abaporu e do portal Mobilize Brasil, imagina as cidades inteligentes. Diagnosticado em 2008 com uma doença neurológica degenerativa, a esclerose lateral amiotrófica (ELA), que lhe tirou os movimentos, Ribeiro será um dos principais keynotes do Smart City Session, a primeira edição global inteiramente online sobre smart cities chancelada pela Fira Barcelona.
O evento agendado para ser realizado entre os dias 8 e 9 de dezembro no Brasil terá uma palestra especial com Ribeiro, às 9h do dia 8, cujo tema será "Movido pela Mente" - uma alusão ao livro de mesmo nome e ao fato do especialista hoje trabalhar e se comunicar por meio de um leitor óptico, que interpreta os movimentos da pupila.
Ao GazzConecta, Ribeiro adiantou algumas tendências para cidades inteligentes pós-pandemia e falou sobre o seu trabalho como membro da equipe de Sustentabilidade Corporativa da Ernst & Young( EY), temas que deverão nortear sua palestra no primeiro dia de Smart City Session. Veja a entrevista:
O quão fundamental é o conceito de acessibilidade e mobilidade sustentável para cidades inteligentes?
A acessibilidade e a mobilidade urbana sustentável
garantem à população o acesso à cidade e às oportunidades de emprego, estudos,
lazer e serviços públicos. Portanto, são vitais para um bom funcionamento de
diversas outras áreas de uma cidade que pretende ser inteligente.
No meu imaginário de cidade inteligente, as
políticas são feitas pensando nas pessoas – de todas as idades, origens e
classes – e não nos automóveis. Isso pressupõe cidades mais humanas e
democráticas, com valorização dos espaços públicos, transporte público de
qualidade, mais estrutura cicloviária e calçadas acessíveis, redução de
acidentes e um ar mais limpo.
Acessibilidade e mobilidade sustentável são temas
transversais, com impacto direto em outros assuntos relacionados à cidade. Na
minha opinião, não é possível considerar inteligente de fato uma cidade sem
boas alternativas de transporte coletivo e ativo, onde as pessoas passam horas
em congestionamentos, gerando poluição, acidentes, problemas de saúde,
deterioração do ambiente urbano e queda na qualidade de vida.
Até o ano passado, quando falávamos em mobilidade, sempre a prioridade era o transporte coletivo. Você acha que este conceito mudou e vai mudar no pós-pandemia?
O transporte coletivo seguirá sendo fundamental
para os deslocamentos de boa parte da população, mas durante a pandemia
ganharam força algumas tendências que já vinham crescendo nos últimos anos,
como o incentivo aos modos ativos e o conceito de cidade de 15 minutos.
Inúmeras cidades no mundo todo construíram
ciclovias, aumentaram calçadas ou áreas para pedestres, e deram incentivos
financeiros para as pessoas comprarem bicicletas. Segundo o Rastreador
Covid-19, monitoramento feito pela Federação Europeia de Ciclistas, mais de mil
quilômetros de estrutura cicloviária foram criadas com sucesso até o mês de
agosto em cidades do continente, que irão gerar três bilhões de dólares por ano
de economia nos gastos com saúde.
Já a “cidade de quarto de hora”, ideia bastante
difundida pela prefeita de Paris, Anne Hidalgo, é um modelo em que os cidadãos
tenham tudo o que precisam, mercados, serviços, parques, lazer, a até 15
minutos de caminhada ou pedalada. Eu morei em Barcelona por dois anos e meio.
Lá a cidade é compacta e a maioria dos bairros são multifuncionais, contendo
moradia, emprego, estudo e lazer. Segundo Salvador Rueda, diretor da Agência de
Ecologia Urbana de Barcelona, as cidades são ecossistemas e, assim como ocorre
na natureza, quanto maior a diversidade e a complexidade organizacional do
sistema, mais desenvolvido ele é. Para ele, uma cidade mais sustentável seria
aquela que fosse capaz de conseguir um grau de complexidade organizativa máximo
com um consumo de recursos mínimo.
O que você acha mais urgente repensar na mobilidade brasileira neste momento? Quais são os pontos cruciais a serem atacados? 
O mais urgente a repensar na mobilidade urbana
brasileira é a condição das calçadas. O Mobilize Brasil já realizou duas
edições da campanha Calçadas do Brasil, em 2012 e 2019, e nenhuma das cidades
avaliadas atingiu, na média, a nota considerada mínima para uma calçada de
qualidade. Calçadas largas e com superfície regular contribuem para a
acessibilidade, facilitam o distanciamento social, incentivam um modo de
deslocamento saudável e trazem outros inúmeros benefícios.
Eu e todos no Mobilize defendemos que as calçadas
sejam de responsabilidade das prefeituras, assim como são as ruas e avenidas.
Exemplos de outros países mostram que somente o poder público tem capacidade e
autoridade para projetar, construir, fiscalizar e manter as calçadas, além da
sinalização e iluminação nos padrões necessários.
Por outro lado, existem pontos positivos que você acredita que o Brasil pode exportar em termos de acessibilidade e mobilidade para o restante do mundo?
Apesar dos obstáculos para se empreender no país, o
povo brasileiro é um povo bastante empreendedor, e isso se reflete também na
mobilidade urbana. Nos últimos anos, proliferaram empresas nacionais com
soluções tecnológicas diversas para transporte coletivo, sistemas de
compartilhamento, aplicativos de mobilidade e outras funcionalidades inovadoras
relacionadas ao deslocamento das pessoas. Algumas dessas empresas já estão
atuando em países fora do Brasil, inclusive na Europa, que é referência em
soluções de mobilidade.
Levando em consideração o seu trabalho na Ernst & Young, qual é a responsabilidade dos futuros líderes de empresas nacionais e transnacionais na cocriação das cidades inteligentes?
Os futuros líderes de empresas têm um papel fundamental
na cocriação das cidades inteligentes. Por um lado, as empresas são importantes
atores no contexto urbano e devem atuar com responsabilidade socioambiental
para minimizar impactos negativos e contribuir para melhorar seu entorno. Por
outro lado, elas fornecem produtos e serviços essenciais para as cidades,
imputando inovação e criatividade em soluções que tragam benefícios aos
moradores.
Vou dar um exemplo pessoal. Pela EY, atualmente estou atuando em um projeto de smart cities para melhorar o transporte público de Belo Horizonte. Estamos trabalhando junto com a prefeitura, Empresa de Transportes e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans), ONU, governo britânico, Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) e outras empresas de consultoria e tecnologia. É um bom exemplo da união entre governos, empresas e organizações para tornar a cidade mais inteligente e melhorar a qualidade de vida da população.
SERVIÇO: Smart City Sessions (evento online)
Quando: 8 e 9 de dezembro de 2020
Quanto: Lote 1: R$ 290, até dia 30 de novembro; Lote 2: R$ 490 a partir de 1º de dezembro
Onde: www.smartcitysession.com
Mais informações: Instagram

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