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Rodrigo Colas, CEO da Smart Break: micromercados autônomos focados em empresas.

O futuro é autônomo: lojas de varejo apostam no autoatendimento

Maria Clara Dias, especial para o GazzConecta
25/02/2022 20:29
Quando decidiu inaugurar, há dois meses, uma loja conceito que dispensa qualquer intervenção humana, a Americanas S.A queria lançar mão de um modelo que prioriza o uso de inteligência artificial ao invés das tradicionais filas e checkouts. O lugar escolhido foi o Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Rio de Janeiro. Por lá, os clientes são monitorados por câmeras e interagem em um sistema interligado à gestão dos itens nas prateleiras e ao peso deles na balança (o que, por sinal, determina o preço a ser pago). Depois disso, basta sair da loja e o valor da compra é debitado automaticamente do app Ame digital.
A Americanas não está sozinha na jornada em busca do autoatendimento em pontos de venda. Redes de supermercados têm apostado em uma tendência que emerge no varejo nacional: a autonomia no atendimento. Seguindo as premissas do que vem sendo há tempos praticado por gigantes varejistas mundo afora, marcas nacionais dão seus primeiros passos rumo ao modelo de negócio que une tecnologia e praticidade.
O principal exemplo nessa frente é a Amazon Go, rede de supermercados da Amazon que segue o conceito de “pegou, levou”. Nessas unidades, inauguradas em 2018, basta o cliente entrar na loja, escolher seus produtos, montar o carrinho e sair. Por trás desse processo está um sistema de pagamentos via aplicativo que funciona em mais de 29 pontos de venda espalhados pelos Estados Unidos e Reino Unido.
Além da Americanas, a rede Carrefour também vem tentando replicar o modelo. Em 2021, a empresa inaugurou suas duas primeiras lojas autônomas no país. A proposta é facilitar o processo de compra, permitindo que clientes entrem, escolham seus produtos e paguem sem qualquer intervenção humana, apenas com a ajuda de um aplicativo e uma porção de QR Codes.
Apesar do pioneirismo das grandes, algumas empresas de menor porte também se arriscam na criação de tecnologias autônomas. No dado mais recente do mercado nacional, de 2021, existem hoje 28 startups que desenvolvem soluções dedicadas a lojas autônomas. A maioria delas ainda em estágio inicial, com cheques que vão do investimento-anjo ao seed money, segundo o hub de inovação aberta Distrito.
De acordo com o Distrito, existem hoje três modelos de lojas autônomas no Brasil. O primeiro deles são as vending machines, ou máquinas de vendas, nas quais os consumidores podem escolher e pagar por seus produtos. Outro modelo é o de conveniências e honest markets, pequenas lojas instaladas em lugares de acesso limitado, como empresas e condomínios e, como o nome sugere, conta com a “honestidade” dos compradores, que retiram os produtos em loja e pagam por aplicativo. Diferente das vending machines, o modelo de lojas autônomas oferece maior variedade de produtos e valor mais atrativo, com valor médio de produtos cerca de 20% a 30% acima dos supermercados tradicionais.
Por fim, as lojas intensivas em tecnologia funcionam aos moldes do que é feito pela Americanas. Um denso sistema tecnológico oferece, entre outras coisas, biometria facial, inteligência artificial e visão computacional.

Cada vez menos hiper

As grandes redes investem em um denso sistema tecnológico que oferece, entre outras coisas, biometria facial, inteligência artificial e visão computacional.
As grandes redes investem em um denso sistema tecnológico que oferece, entre outras coisas, biometria facial, inteligência artificial e visão computacional.
Para especialistas, as lojas autônomas são uma evolução dos minimercados. Criados pelas grandes redes, os minimercados, ou mercados de conveniência, são uma tentativa de aumentar a capilaridade em bairros afastados e trazer uma operação de menor porte que se adeque ao dia a dia de uma população cada vez mais ágil e sem tempo para compras. Por sua vez, esses mercados são uma evolução dos grandes supermercados, derivados, no passado, dos hipermercados.
“Essa é a última fronteira do varejo brasileiro”, diz Eduardo Yamashita, diretor de operações da consultoria especializada em varejo Gouvêa Ecosystem. Para ele, a busca de consumidores por conforto e praticidade deve embalar o crescimento das lojas altamente tecnológicas das grandes redes que já criaram braços dedicados à autonomia. “Vemos líderes como Carrefour, B2W, GPA e Dia atacando nessa frente”.
O empenho das grandes varejistas pela autonomia acontece, em boa medida, pelos recursos. Por outro lado, estão as startups que permitem criar uma operação personalizada (algo que, via de regra, é mais dispendioso) ao mesmo tempo em que equilibram custos para o varejista. Estas têm maior facilidade em investir na criação da modalidade de honest markets.
A procura de consumidores por mais conveniência, algo intensificado com a pandemia de covid-19, também fez saltar o capital injetado em startups de lojas autônomas. Das cinco rodadas de investimentos envolvendo pequenas empresas do setor, três aconteceram nos últimos dois anos.
Uma das startups a apostar no salto do varejo autônomo é a paulista Smart Break, que desenvolve micromercados autônomos, geridos a partir de um app para celulares. Fundada em 2018 por Rodrigo Freitas, a Smart Break começou atuando com empresas dispostas a substituir as vending machines nos escritórios por micromercados. “Havia uma demanda reprimida entre empresas de 100 a 200 que não tinham uma solução de alimentação e varejo”, conta Rodrigo Freitas, CEO da startup.
Depois das empresas, a startup expandiu seus minimercados para condomínios residenciais na capital paulista. Hoje, já são 250 lojas na cidade e em Campinas. A empresa também mantém um ritmo de abertura de, em média, 30 lojas por mês. No modelo de negócio da Smart Break, a responsabilidade pela instalação das lojas é da startup. Também fica a cargo da empresa a gestão do estoque e reposição de itens nas gôndolas dos minimercados. A lógica, segundo Freitas, é vantajosa. “O que fazemos é substituir as vending machines, um modelo ultrapassado e que custa infinitamente mais para o varejista”, afirma.
De acordo com o CEO, uma vending machine custa em torno de R$ 80 mil, enquanto uma unidade da Smart Break sai por R$ 10 mil. O formato também é mais barato porque costuma faturar mais com a maior variedade de itens. “Eu vendo mais porque consigo colocar mais produtos ali”, diz. A Smart Break recebe uma porcentagem mensal pelas vendas feitas nos condomínios e empresas onde estão as lojinhas.

Novas fronteiras do varejo

Na visão de Yamashita, as lojas autônomas são o futuro do varejo. Para ele, grandes redes — e de setores variados — devem acelerar a implementação desse modelo a partir dos resultados colhidos pelas supermercadistas neste primeiro momento.
Nesse cenário, escalar um modelo que se baseia, em essência, em tecnologia e transformação digital e cultural tem lá seus desafios. Os principais deles, segundo o especialista, são os aspectos culturais. Os mercados autônomos sem adoção de tecnologia de reconhecimento ainda contam com o modelo de “pegue e leve”, o que muitas vezes implica na confiança de que o consumidor irá pagar pelo produto.
Algumas empresas quebraram sob a mesma lógica (vide o exemplo das empresas de aluguel de bicicletas e patinetes Yellow e Grin), o desafio está em incluir os custos com reposição, furtos e até mesmo esquecimento por parte dos clientes no planejamento.
Segundo Freitas, cabe às empresas investir em mecanismos para evitar percalços com segurança e possíveis fraudes. “Ainda assim, é preciso incluir esse déficit na margem”, conclui.
À frente de uma startup que pretende expandir sua presença regional nos próximos anos, Freitas acredita que os mercados autônomos ainda devem demorar para se tornarem realidade em algumas regiões. “Acredito que elas vão demorar para chegar a locais que concentram muito público, como estações de metrô, por exemplo”.
A expectativa está em linha com o que o Distrito considera ser uma das vantagens das lojas autônomas: a proximidade com o consumidor. Enquanto um supermercado tradicional pode demorar meses e gastar tempo e esforço em pesquisas para entender as impressões de um consumidor, as lojas autônomas fazem isso facilmente.
Com todo o aparato tecnológico, elas captam dados sobre o perfil dos compradores como idade, gênero, tíquete médio e produtos de preferência. Tudo isso colabora para que os operadores das lojas de autoatendimento saibam o que vender, quando vender e como. Em tempos de competição acirrada no varejo e digitalização em massa, a briga pela atenção do consumidor ganha novos capítulos.

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