
Allan Costa
Allan Costa é empreendedor, investidor-anjo, mentor, escritor, motociclista e palestrante em dois TEDx e em mais de 100 eventos por ano. Co-fundador do AAA Inovação, da Curitiba Angels e Diretor de Inovação da ISH Tecnologia. Mestre pela FGV e pela Lancaster University (UK), e AMP pela Harvard Business School.
Você, amanhã
Quais são os passos necessários para um sonho se tornar realidade?
Estamos obcecados por soluções instantâneas, em que para cada dificuldade existe alguém oferecendo um atalho milagroso, quase sempre caro, raso e inútil, mas já falamos sobre isso por aqui.
A reflexão hoje é que existe, sim, uma solução que se aplica a praticamente tudo na vida.
Perder peso, ganhar massa magra, aprender um novo idioma, se tornar um atleta de alto rendimento, virar músico, empreender ou alcançar excelência profissional: o que todas essas coisas têm em comum é o fato de dependerem de algo que não cabe em vídeos de 30 segundos.
A verdade não poderia ser mais banal: a fórmula mágica é a junção fatal de vontade e disciplina. É simples, não é vendável, mas é a única que realmente funciona. Acompanha o raciocínio.
Comecemos pela vontade. Querer algo de forma aleatória, só porque está em alta ou porque alguém que você admira faz, não se sustenta. A empolgação inicial até aparece, mas desaparece com a mesma rapidez. A vontade verdadeira precisa nascer de um desejo profundo, motivado por um propósito que vai além do impulso.
Olhar para a infância é bastante revelador: quando éramos crianças, queríamos ser caça-fantasmas, super-heróis ou treinadores de dragões. Por mais que nenhum desses sonhos seja realizável, eles nos apontam o norte: o desejo.
O desejo é essa força interna, instintiva, que nos impulsiona em direção a algo que nem sempre faz sentido, mas que fala diretamente com quem somos.
Depois desse desejo bruto, emocional, vem a vontade racional, que é quando o sonho começa a se encontrar com a realidade. É o momento em que dizemos: “Ok, não posso ser caça-fantasmas, mas talvez eu possa ser arqueólogo”; “Não posso treinar dragões, mas posso ser biólogo e trabalhar com animais selvagens.”
A vontade é, portanto, a racionalização do desejo. E é justamente nesse ponto que descobrimos se aquilo que desejávamos era forte o suficiente para se transformar em ação, ou se não passava de um capricho momentâneo.
Mas mesmo a vontade, por mais genuína que seja, não se sustenta sozinha. É aqui que muitas pessoas se perdem: confundem vontade com força de vontade, e são coisas completamente diferentes.
Ter vontade vem do desejo. Ter força de vontade é resistir às tentações de abandonar o caminho. E nenhuma delas, isoladamente, gera resultado. Para alcançar qualquer objetivo, é preciso esforço, renúncia e constância: três palavras que não combinam com a lógica imediatista que toma conta do nosso tempo.
É por isso que para ser “fitness” não basta seguir blogueiros que exibem rotinas perfeitas. É necessário abrir mão das refeições desleixadas, seguir um plano alimentar equilibrado e colocar o tênis para treinar de verdade, mesmo nos dias ruins.
Da mesma forma, para ser arqueólogo, não basta se divertir cavando buracos no quintal. É preciso passar horas (muitas horas) dentro de um laboratório, analisando ossos e fragmentos de solo até que a coisa comece a fazer sentido.
A vida adulta é um lembrete diário de que gostar de algo não significa estar disposto a enfrentar o que esse algo exige.
Até aqui, está claro: desejo não é vontade, vontade não é ação e ação sozinha não garante resultado. O que produz resultado, de fato, é a disciplina: essa palavra impopular, quase antipática, que ninguém quer ouvir, mas que separa quem sonha de quem realiza.
Disciplina é acordar todos os dias e fazer o que precisa ser feito, mesmo cansado, mesmo sem motivação, mesmo sem… vontade. Sem disciplina, a vontade volta ao lugar de origem: a esfera emocional do mero desejo. E emoção, por mais intensa que seja, não constrói nada concreto.
O segredo não poderia ser mais óbvio: sonhos só se realizam com a combinação infalível de vontade e disciplina. Qualquer coisa diferente disso é fantasia. Vontade sem disciplina é apenas desejo e desejo sem ação permanece para sempre no mesmo lugar em que nasceu: na imaginação.



