O avanço dos agentes autônomos em 2026 ignora as antigas faixas de segurança da estratégia digital, atropelando modelos de negócios que pareciam consolidados. Crédito: Imagem gerada por IA/Google Gemini.
Rucelmar Reis
Rucelmar Reis é empreendedor, com vasta experiência em tecnologia e negócios digitais. Fundador e sócio de diversas empresas, atua como mentor e conselheiro de startups. Formado em ESADE Barcelona e MIT, une visão estratégica e prática no desenvolvimento de negócios.
Em 2018, eu estava nas salas de aula do MIT Sloan, achando que tinha encontrado o mapa do tesouro. O curso era o “Digital Business Strategy: Harnessing Our Digital Future”. Os professores? Andrew McAfee e Erik Brynjolfsson, que eram para mim os sumos sacerdotes da era digital. A tese deles, imortalizada no livro Machine, Platform, Crowd, era o "beabá" da sobrevivência: a Máquina (IA analítica) ampliaria nossa mente, as Plataformas dominariam os mercados e a Multidão (Crowd) distribuiria o poder. Terminei esse curso com a cabeça explodindo, convencido de que, se dominasse esses pilares, eu saberia navegar nesse jogo.
Doce ilusão.
O futuro não chegou. Ele atropelou
Agora, em 2026, olho para trás e percebo que o futuro não apenas chegou; ele nos atropelou geral e cuspiu os restos dos conceitos que aprendi. Irônico ou não, até os meus mestres tiveram que recalibrar o discurso. Erik Brynjolfsson, que antes falava de um "Paradoxo da Produtividade" lento e gradual, agora admite que a IA Generativa implodiu a curva J. O que levava décadas para gerar ganho real agora acontece em meses. A IA não está mais "pavimentando caminhos"; ela está criando sistemas terrenos onde o trabalho humano é um detalhe.
Andrew McAfee também mudou a rota. Ele percebeu que plataformas não bastam mais. Agora ele prega o "The Geek Way" [2], focando na cultura de iteração rápida. O "Core" das empresas não foi apenas desafiado pela multidão; ele precisou se transformar em uma estrutura ágil para não facilmente substituído. Eles mesmo se assustaram com a velocidade e não conseguiram prever a maioria desses fenômenos modernos. Mas eu aposto em algo muito mais brutal: uma implosão total da arquitetura do poder. Parece meio apocalíptico ou catastrófico demais. Mas vou explicar por que chego a pensar nisso quando me aprofundo no tema.
A morte da Crowd e a implosão das plataformas
Aqui vai a minha visão, sem anestesia e sem compromisso em estar 100% certo: a Crowd está morta. Aquela ideia romântica de 2018 sobre o poder da colaboração humana distribuída funcionou por pouco tempo. Os apps two-sided marketplace, como Uber, Airbnb e Ifood ainda estão aí e muito utilizados. Então é inegável que representam o presente. Mas para mim, não representam o futuro. O que teremos logo mais será bilhões de agentes autônomos operando em um nível que a mente humana sequer processa.
O MIT 2025 AI Agent Index mostra que a autonomia saltou para o Nível 5 (execução sem intervenção humana) em tempo recorde. Esses agentes não são apenas ferramentas; eles são os novos decisores. Eles filtram, priorizam e executam para os seus mestres. E nós? Em breve seremos maestros de uma legião de agentes que estarão a nosso serviço. Ou, nós corremos o risco de sermos os escravos da conveniência e cada vez deixarmos de sermos relevante perante esse novo sistema global. Achamos que somos os mestres, e por enquanto podemos ser, mas temos grande chance de apenas sermos o ponto de partida de uma imaginação que se materializa sem o nosso crivo e sem nosso comando.
E as Plataformas? Elas vão implodir. Pelo menos no conceito atual que as conhecemos. Se não há mais programação, nem compilação, nem dados estruturados como conhecíamos – porque tudo é máquina, tudo é binário, tudo é pensamento executável – a plataforma atual vira apenas uma camada de fricção desnecessária. Um resquício de uma era onde a comunicação entre humanos e máquinas ainda exigia tradutores. A linguagem não será mais um protocolo; a linguagem será a própria máquina. O que restará é processamento, a energia e a capacidade de materializar o pensamento em execução pura. O "imposto da sintaxe" acabará, e o "imposto da energia" será o novo senhor feudal.
Teremos mente suficiente para tratar isso?
A pergunta que me faço, e que me tira o sono, é esta: se em 2018 minha mente se abriu para o que viria, hoje, em 2026, teremos mente suficiente para sequer entender o que está acontecendo? A IA não está nos ajudando a pensar; ela está pensando por nós. Brynjolfsson chama isso de "Revolução Industrial Cognitiva". Eu chamo de delegação total e inconsciente.
O risco não é a máquina se rebelar. O risco é perdermos o "porquê" das decisões. É o fim da Torre de Babel das linguagens, mas o início de um abismo cognitivo onde a mente humana se perde na complexidade da própria criação. Como separar a "erva daninha" da "planta saudável" quando a própria imaginação é o código e o filtro humano se tornou obsoleto?
Neste cenário, a liderança consciente é a última linha de defesa. Exige a humildade de aceitar a superioridade da máquina, mas a coragem de manter o controle ético. O que aprendi no MIT em 2018 me deu o mapa, mas o terreno mudou tanto que o mapa agora é apenas uma relíquia de museu. A grande questão é: nossa mente biológica e linear será capaz de acompanhar o ritmo da mente artificial exponencial que criamos? Ou seremos apenas os mestres imaginários de um exército de agentes que já decidiram o nosso destino?
Só nos resta monitorar e ficar atento às novidades diárias, que em breve serão praticamente de hora em hora.