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Você já recebeu algo que não solicitou pelo correio? Essa prática é conhecida como brushing scam e é usada para melhorar performance de lojas online.

Andre Inohara*

Brushing scam

O que é o brushing scam, prática ilegal que melhora performance de e-commerces

08/10/2020 12:52
Ao que tudo indica, o motivo de tantas pessoas receberem
sementes misteriosas pelo correio, como tem acontecido nos últimos meses e sem
nenhuma explicação do remetente – ou solicitação do usuário – é que está
havendo uma simulação de compras pela internet.
Essa tática é chamada de brushing scam, prática antiga no e-commerce na qual alguns lojistas ou pessoas relacionadas conseguem os dados de usuários – nem sempre de forma lícita – e enviam pacotes pelo correio contendo pequenos objetos (laços de cabelo, embalagens vazias e até, vejam só, sementes).
Registrando a operação de envio dessa “venda” na plataforma,
o autor cria um perfil falso e faz avaliações positivas no site, aumentando
artificialmente as postagens elogiosas e o tráfego de vendas. Isso faz com que
os algoritmos de busca das plataformas entendam que a loja em questão está
gerando movimento e colocam ela no topo das listas de e-commerces.
Nesse caso, receber sementes pelo correio não significa que é o presente de um(a) admirador(a) desconhecido(a). Ela é uma prática ilegal de e-commerce que beira ao cibercrime, uma vez que os dados pessoais podem ser obtidos por hackeamento, e está sendo combatida na China com tecnologia e apoio das autoridades.
Quem recebe sementes ou qualquer outro produto não comprado pela internet pode ficar com elas. No caso dos grãozinhos, alguns foram identificados como alecrim ou laranja. Você pode plantar eles se assim desejar, mas o mais recomendado é enviar o conteúdo do pacote ao Ministério da Agricultura no escritório ou repartição do órgão na cidade. O objetivo é avaliar se há algum risco fitossanitário vindo do exterior.

Combate ao brushing scam

Empresas e autoridades chinesas vêm coibindo esse tipo de
prática há anos. Em 2016, o Cainiao, empresa de logística do Alibaba, trabalhava
com autoridades do governo e empresas de entrega para identificar a rede de “scammers”.
Além disso, o Cainiao passou a usar big data não só para impedir que as lojas plagiassem
mercadorias, mas também monitorar o envio de pacotes vazios.
Como isso funciona? O sistema de inteligência artificial da companhia analisa o áudio do atendimento ao cliente. Baseado no reconhecimento do tom de voz e análise do discurso do usuário, o algoritmo avalia o quão irritado ele está sobre qualquer coisa, desde um produto defeituoso até uma compra não realizada, e mensura quais os comércios são reincidentes no mau atendimento.
O cerco aos “scammers” surtiu algum efeito e a prática se enfraqueceu na China. O principal efeito foi que, em 2019, o governo incluiu na Lei de Comércio Eletrônico da China o brushing scam como prática ilegal, assim como a de recompensar avaliações positivas dos consumidores com dinheiro. É uma clara iniciativa para melhorar a atuação da indústria de e-commerce.

A Covid e a reincidência de casos

Mas a prática voltou com força esse ano. Durante a quarentena de janeiro e fevereiro, as pessoas não podiam sair das suas casas e praticamente todas as compras eram feitas pela internet. A consequência natural foi o boom de consumo por delivery, atraindo muitos comerciantes e empreendedores iniciantes para o ambiente do e-commerce. Para ganhar clientes rapidamente, alguns usaram a velha tática do brushing scam.
Diante das fortes evidências de uma nova onda de scam, as autoridades chinesas decidiram agir. Com a disseminação e aperfeiçoamento das tecnologias de big data no comércio eletrônico, os reguladores tributários comparam com mais acuracidade os dados fiscais dos comerciantes com os das plataformas virtuais.
Funciona assim: digamos que um lojista virtual usa táticas ilegais, como o brushing scam, para melhorar sua performance comercial. Na plataforma virtual onde está o negócio dele fica registrada a receita total de vendas, que é de 1000 renminbi. Essa informação é enxergada pelo fisco e ele deve imposto sobre esse valor.
Mas como ele registrou vendas fictícias, o faturamento real é menor. Vamos ilustrar no exemplo que as vendas reais foram de 600 renminbi. Bem, foi sobre esse montante que ele pagou imposto. Cruzando os dados fiscais desse estabelecimento, o Leão chinês descobriu que há impostos não pagos relativos a 400 renminbi (a diferença entre a receita declarada e a real). É no bolso onde a coisa aperta.
Em junho, o
fisco chinês contatou cerca de 2 mil comerciantes de Pequim que operavam nas
plataformas de e-commerce Tmall (do Alibaba) e JD.com, solicitando a
regularização dos impostos não pagos entre 2017 a 2019. Muitos deles não tinham
dinheiro para regularizar a situação e fecharam suas portas.
Aqui no Brasil, a prática ficou exposta com os recentes
episódios. O brushing scam é uma prática comum entre pequenos negócios e difícil
de ser erradicada, para não dizer impossível, devido ao grande trabalho de
monitoramento e identificação dos autores.
Para definirmos ações concretas de combate a esse tipo de distorção no e-commerce, podemos seguir o exemplo de países que já enfrentam o problema, como a China, e avançar na autorregulação das práticas ilegais do comércio eletrônico.

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