O Venture Capital está se transformando para gerar retornos financeiros e criar impacto positivo no mercado e na sociedade. Na América Latina - e especialmente no Brasil -, essa mudança está criando um ecossistema mais atrativo, resiliente e diversificado. Crédito: Natee Jindakum.
João Kepler
João Kepler é escritor, educador, anjo-investidor, conferencista, apresentador do programa PIVOTANDO no SBT News. É autor de 11 livros, especialista em nova economia, equity, startups e negócios inovadores. Foi premiado quatro vezes como o Melhor Investidor Anjo do Brasil pelo Startup Awards. Também foi premiado pelo iBest como Top #1 do Brasil em Economia e Negócios. Kepler ainda é CVO da Bossa Invest - Venture Capital e CEO da Equity Fund - Private Equity.
O Venture Capital no Brasil está passando por uma revolução silenciosa, mas impactante
06/02/2025 17:55
Antigamente, o principal objetivo de um fundo era apenas retornar o capital investido, com o maior ganho possível. Hoje, essa mentalidade já não é suficiente, principalmente porque, de forma equivocada, essa abordagem acaba comparando a classe de ativo "startup" à Renda Fixa, que atualmente vem oferecendo retornos atrativos. Investidores com um nível de consciência elevado buscam mais do que rentabilidade de curto prazo. Eles buscam o longo prazo, investindo em Capital Produtivo, que gera trabalho, energia, renda e desenvolvimento econômico. Essa nova visão agrega valor real, gera impacto sustentável e constrói legados que vão além dos números. Essa transformação é especialmente evidente na América Latina, onde o modelo de negócios do Venture Capital está evoluindo rapidamente.
Historicamente, o VC cresceu em ciclos, moldado por eventos econômicos e tecnológicos. Desde os primórdios nos anos 60 até o boom da internet nos anos 90, a indústria passou por várias fases. No entanto, o momento atual exige mais do que apenas capital abundante ou inovação tecnológica. Hoje, a diferença entre um fundo de sucesso e os demais está no quanto ele realmente contribui para o mercado e para o sucesso de uma startup. Isso passa por oferecer suporte estratégico e acesso a relacionamento e redes exclusivas para quem investe também.
Cada fundo de Venture Capital desenvolve sua especialidade e tese de investimento com base no impacto que deseja gerar e nas oportunidades que pode explorar. Enquanto alguns fundos optam por uma abordagem generalista, outros criam teses específicas e focadas, desenvolvendo modelos especializados ou boutiques. Esses fundos buscam construir relações próximas com fundadores e investidores, oferecendo não apenas capital, mas também uma parceria estratégica de alta qualidade que contribua para o crescimento sustentável.
Um exemplo marcante dessa abordagem que eu posso declarar é a Bossa Invest, da qual sou fundador e atual Chief Visionary Officer (CVO). Ela se destaca no mercado ao construir um verdadeiro ecossistema de negócios em torno de seus investimentos. Com uma tese boutique altamente específica, a Bossa se especializou em startups nos estágios iniciais (anjo e pré-seed) no Brasil, fases frequentemente fora das teses dos grandes fundos. Além disso, conecta startups de diferentes regiões do país ao primeiro acesso ao capital e, ao mesmo tempo, oferece educação e oportunidades para novos investidores que desejam conhecer e explorar o universo das startups.
Mesmo com um grande portfólio diversificado e em constante crescimento, a Bossa Invest mantém um alto nível de envolvimento com empreendedores e investidores. Por meio de seu ecossistema e comunidades, a Bossa oferece serviços como mentorias, acesso a perks, redes de contatos estratégicas e suporte em desafios como M&A e rodadas de captação. Essa abordagem integrada demonstra como fundos especializados podem entregar valor real, indo além do retorno financeiro para investidores (MOIC) e do valuation futuro para fundadores.
O conceito de "ecossistema" no Venture Capital moderno vai além da "boutique especializada". Não se trata apenas de oferecer capital e serviços, mas de criar redes robustas e comunidades que conectem startups, investidores, mentores e stakeholders estratégicos. Casas de investimentos como a Bossa Invest mostram que é possível construir ambientes colaborativos e férteis, nos quais startups não apenas recebem investimentos, mas encontram suporte contínuo para crescer e prosperar - e investidores não são apenas um “cheque”.
Para os fundadores de startups, escolher um fundo de Venture Capital vai muito além do tamanho do cheque. Deve ser uma decisão estratégica, baseada no alinhamento de valores e objetivos. Fundos generalistas oferecem grandes aportes e estruturas robustas e eles são muito importantes e necessários, enquanto os especializados entregam proximidade, atenção personalizada e um suporte que muitas vezes faz toda a diferença para acelerar o crescimento das startups, principalmente nas fases iniciais.
O Venture Capital não está apenas se transformando para gerar retornos financeiros, mas para criar impacto positivo no mercado e na sociedade. Fundos que investem em startups com propósitos claros, alinhados, têm mais chances de prosperar no médio e longo prazo. Essa nova mentalidade não só atrai investidores que buscam resultados financeiros, mas também aqueles comprometidos em contribuir e deixar um legado.
Na América Latina - e especialmente no Brasil -, essa mudança está criando um ecossistema mais atrativo, resiliente e diversificado. Enquanto o mercado global caminha para a concentração em poucos fundos gigantes, a região adota um modelo próprio, favorecendo fundos especializados e pulverizados. Esse modelo é mais adaptado às condições locais e tem potencial para oferecer retornos superiores ao apostar em nichos e negócios menos explorados.
O futuro do Venture Capital no Brasil não é sobre cheques maiores ou mais startups unicórnios. É sobre construir ecossistemas e comunidades sustentáveis que combinem retorno financeiro e impacto real. Gestores como a Bossa Invest estão na vanguarda desse movimento, mostrando que o verdadeiro diferencial competitivo está em agregar valor ao mercado enquanto funcionam como Learning Organization, não dependendo apenas das suas taxas cobradas.
As mudanças no mercado de Venture Capital, no entanto, não param por aí. Elas envolvem repensar o modelo de negócios, questionar quando uma startup deixa de ser uma startup, analises com apoio de IA, agilidade e menos tempo para decisões e diligencias, criar liquidez por meio de early exits, dividendos e mercado secundário, além de revisar modelos atuais de distribuição e captação. Tudo isso exige flexibilidade para "desengessar" processos e transformar estruturas antigas. Claro, dentro do limite das possibilidades, observando regras e regulação vigente, mas pensando sempre em melhorias.
Quem entender essa dinâmica estará liderando uma indústria que, finalmente, percebeu que gerar impacto é o caminho para se diferenciar e alcançar resultados ainda mais extraordinários.
É claro que minha visão no mundo de Venture Capital sempre foi fora da caixinha do VC. Por isso, algumas vezes, sou criticado pelo "sistema". Desde o começo da Bossa em 2015, quando criamos (eu e Pierre) o modelo de diversificação com cheques menores em grande quantidade, fomos confundidos e isolados como Spray and Pray. Mas, felizmente, hoje o nosso track record mostra que estávamos certos e eles errados. Hoje, muitos VC's também fazem cheques menores. Agora, trago novamente uma outra e nova provocação de mudança no mercado tradicional. "Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.
Pense nisso!
Lideranças do agro e food no GazzSummit Agro e Foodtechs
O GazzSummit Agro e Foodtechs vem para ocupar um lugar de destaque nas discussões sobre inovação no agronegócio e no setor de food, conectando especialistas, empresas e startups para debater tendências, tecnologias e os principais desafios desses segmentos, fortalecendo o debate em torno da cadeia produtiva que leva os produtos do campo à mesa do consumidor.
Entre os palestrantes já confirmados estão Dilvo Grolli, presidente da Coopavel; Paulo Maximo, diretor de planejamento e operações de vendas LATAM da CNH Industrial; e Mirella Lisboa, head AgroStart LATAM da BASF. O evento também contará com três grandes nomes do setor supermercadista paranaense: Carlos Beal, sócio-proprietário do Festval; Everton Muffato, diretor do Super Muffato; e Pedro Joanir Zonta, fundador da Rede Condor e presidente do Grupo Zonta.
Promovido pelo GazzConecta, o GazzSummit mantém seu pioneirismo ao abordar, conjuntamente, o agro e o setor de food service, tendo as agrotechs e foodtechs como norteadoras das discussões.
Apresentado pela Gedisa, referência em geração distribuída de energia, e com o patrocínio da Urso Consultoria Empresarial, o GazzSummit será realizado nos dias 26 e 27 de março como parte do Smart City Expo Curitiba, segundo maior evento sobre cidades inteligentes do mundo. Os ingressos já estão disponíveis no site oficial do GazzSummit Agro e Foodtechs.