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A necessidade atual de profissionais de TI é de 70 mil ao ano, mas universidades só formam 46 mil com perfil tecnológico. Como resolver esse problema?

Fernando Bittencourt Luciano

Fernando Luciano é diretor da Hotmilk, ecossistema de inovação da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), professor e pesquisador da área de Biotecnologia também na PUCPR. Graduado em Farmácia e Bioquímica de Alimentos pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), também é doutor em Food and Nutritional Sciences pela Universidade de Manitoba, no Canadá, onde foi bolsista do governo canadense. Atuou também como pesquisador no Guelph Research and Development Centre, no Canadá, e como docente convidado na Universidade de Valência, na Espanha. No campo do empreendedorismo, é CEO do NASSLE Group, focado em P&D, sua terceira startup.

Gap de mercado

Onde estão os profissionais de TI?

18/02/2021 21:18
Estando
inserido em um ecossistema de inovação que faz parte de uma universidade, é
bastante comum que uma das requisições mais frequentes que recebo seja sobre a
indicação de profissionais de TI (Tecnologia da Informação), pois empresa X, Y
ou Z está contratando desesperadamente. E os pedidos vêm de diversos lugares do
Brasil, principalmente de locais onde já há uma consolidação do universo de
startups, presença significativa de grandes fundos de investimento e a inflação
nos salários de devs e data scientists já ultrapassou os limites
do bom senso.
Dados da Brasscom (Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação) são claros: a necessidade atual de profissionais de TI é de 70 mil ao ano, mas as universidades só formam 46 mil pessoas com perfil tecnológico. E se não encontrarmos uma solução logo, o problema ficará muito mais latente em breve. A demanda deve crescer para 420 mil profissionais ao ano nos próximos três anos, que idealmente deveriam falar inglês, trabalhar com metodologias ágeis e ter bom relacionamento interpessoal para atuar em equipes.
Para dar vazão a essa demanda reprimida, que é paradoxal ao momento econômico atual do Brasil (temos 14,1 milhões de desempregados), escolas de TI estão surgindo aos montes e com modelos de negócio bastante variados.
Há modelos “gratuitos”, como a École 42 (quem paga são empresas interessadas na mão de obra formada ou que querem promover educação) e a Apple Developer Academy, até os que pedem uma taxa de sucesso sobre o seu salário (income share agreement) caso você consiga um bom emprego, como a Trybe, Kenzie Academy e a Labenu.
Tem até escola que surgiu no meio da pandemia, formada por ex-Googlers, a Xoogler, que tem um público-alvo bem específico, nascido com a realidade de 2020: estudantes universitários talentosos que tiraram um ano off para não pagar mensalidades em cursos que deveriam ser presenciais, de tecnologia ou não.
Com ou sem mensalidades, essas escolas também precisam pagar suas contas no final do mês. Assim, todas possuem um processo seletivo que é baseado em características dos estudantes que devem aumentar as chances de empregabilidade ao final do curso – alta capacidade lógica, habilidade para trabalhar em grupo, histórico de excelência, etc. Apesar de possuírem um ciclo de formação bem mais curto do que as universidades (variando de poucas semanas até 24 meses), a resposta ainda está longe de resolver o problema atual da escassez de recursos humanos.
A carência de profissionais de TI não é tão recente e já vem se acumulando ao longo dos anos. Por um período, as universidades estavam próximas de dar conta do recado, mas o crescimento exponencial das empresas de tecnologia nos últimos cinco anos fez com que todas as iniciativas atuais de resposta estivessem muito aquém da necessidade do mercado. Um estudo recente do Sebrae/PR mostrou que o Paraná possui 1,4 mil startups, sendo que 374 delas foram criadas em 2020. E esse é só o começo.
Pensando nos
profissionais que estão buscando transição de carreira para TI, nos jovens
querendo realizar formação em tecnologia e na necessidade de dar uma base de
conteúdo tecnológico para qualquer profissional que queira se manter
competitivo no futuro, as opções atuais simplesmente não são suficientes. E
isso já está causando estresse para empresas e instituições de ensino superior
(IES). A solução, pelo menos em parte, pode e deve vir da colaboração entre
essas organizações.
O Brasil
possui mais de 2,4
mil instituições de ensino superior
, e elas precisam remodelar e
flexibilizar a formação pós-secundária de profissionais de TI. Nada contra a
formação mais profunda, com um currículo de quatro ou cinco anos, visando engenheiros
de software ou cientistas da computação, mas outras opções também devem
existir. E a contradição é que muitas dessas instituições de ensino estão com
dificuldades em seus próprios modelos de negócio, lutando para reduzir o ticket
médio de seus cursos e combater a evasão constante de estudantes que buscam uma
conexão maior com o mercado.
Cursos de TI ofertados por IES e desconectados do mercado costumam ter uma procura muito abaixo da necessidade desses profissionais. São cursos que exigem muita dedicação – e que muita gente não enxerga claramente o benefício após a diplomação. As IES precisam se abrir para novas propostas educacionais, mantendo o ouvido colado no mercado.
E as empresas? Essas devem participar ativamente da construção de currículos e visão do profissional do futuro. Podem fornecer conteúdo, como desafios de projetos reais com diferentes graus de dificuldade, provendo insumo de capacitação que pode ir de cursos rápidos até o doutorado. Quer gerar procura e dedicação para esses cursos? As empresas podem oferecer bolsas e/ou empregabilidade ao final do processo formativo.
Temos alguns cases na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) que mostram que esse modelo funciona. Já realizamos cursos de diversos formatos. Um deles durou cinco meses, para a formação de desenvolvedores para um grande banco. 14 dos 15 participantes saíram contratados, enquanto a meta do banco era contratar sete pessoas.
Além disso, temos centenas de estudantes que estão resolvendo desafios das empresas em projetos de disciplinas, TCC, iniciação científica, mestrado ou doutorado. A empregabilidade dos alunos que participam desses projetos é altíssima, pois as empresas têm a chance de conhecer, com um bom nível de profundidade, a capacidade técnica e não-técnica (soft skills) dessa mão de obra. Entendo que esse tipo de relacionamento dá muito mais assertividade na hora da contratação do que uma entrevista seguida de estudo de caso e teste de perfil comportamental.
Só com a união de centenas ou milhares de IES com outras milhares de empresas é que venceremos o desafio de formarmos quase meio milhão de pessoas por ano para trabalhar na área de tecnologia da informação. O prazo é curto: menos de cinco anos. Essas organizações precisam abrir a cabeça para modelos de formação diferentes dos atuais. Caso contrário, o Brasil pode sofrer grandes restrições de crescimento e perder o bonde da inovação.

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