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O ecossistema brasileiro de desenvolvimento de jogos contribui com o setor tanto no contexto local, quanto internacional.

Bruno Campagnolo*

Game Developers Conference

O futuro do mercado de games diretamente da Califórnia

31/03/2023 20:54
Não é necessariamente uma novidade que o mercado de games está mais aquecido a cada ano que passa. A pandemia impulsionou o crescimento do setor, que é um dos maiores da economia criativa. Só em 2022, o segmento movimentou, no mundo, US$ 175,8 bilhões, número que pode ultrapassar os US$ 200 bi neste ano, de acordo com previsão da consultoria Newzoo.
O ecossistema brasileiro de desenvolvimento de jogos contribui com o setor tanto no contexto local, quanto internacional. Segundo números divulgados pela Associação Brasileira das Empresas Desenvolvedoras de Games (Abragames) em seu relatório mais recente sobre a produção nacional de jogos, nossas mais de mil empresas atuam, em sua maioria, para o mercado internacional. Isso reforça a importância da participação das companhias e desenvolvedores nacionais em eventos internacionais para poderem fazer negócios e divulgarem suas criações.
Entre os dias 20 e 24 de março, foi realizada mais uma edição desses eventos. Estou falando da Game Developers Conference (GDC), maior e mais tradicional feira do mundo voltada a desenvolvedores de jogos. A GDC é realizada anualmente, na Califórnia, e em 2023 reuniu mais de 24 mil profissionais. Com duração de uma semana, o evento envolve uma imersão completa na área de jogos, com palestras, workshops, estandes de demonstração de novas tecnologias, exposição, lançamentos e oportunidades de networking. Gente do mundo todo participa. Neste ano, foram mais de 40 empresas brasileiras e cerca de 100 desenvolvedores nacionais.
Em 2023, estive na feira presencialmente pela décima vez e conferi diversas novidades que dão pistas sobre o futuro do mercado e dos jogos em geral. O primeiro ponto que chamou a minha atenção foi o fato de que a Inteligência Artificial (IA) Generativa veio para ficar. Ferramentas como Midjourney e ChatGPT, geradores de imagens e textos por meio de IA, já estão inseridas no dia a dia de muitas companhias de diversas áreas.
Na área de jogos, ferramentas específicas e integradas vão permitir a geração de muito conteúdo especializado de maneira rápida e efetiva. A Ubisoft, por exemplo, anunciou que já está usando uma ferramenta que dá suporte à criação de roteiros de jogos. Já a Roblox, plataforma de metaverso muito usada pelo público infanto-juvenil, demonstrou integração em seu editor de jogos para a criação de texturas e também apresentou um plano para possibilidade de criação de jogos completos a partir da IA.
O que mais me impressionou, porém, foi uma demonstração da Square Enix em que a interface para controle de um jogo narrativo, em vez de ocorrer via botões ou opções, era feita por meio de um diálogo rico e totalmente aberto usando ferramenta similar ao ChatGPT. No futuro, os NPCs, personagens controlados pelo computador dentro dos jogos, terão comportamentos cada vez mais ricos e únicos.
Outro aspecto que observei na GDC e que ainda levanta muito ceticismo é: como iniciativas como criptomoedas, criptogames, blockchain em geral, e mesmo a tão falada web3, enquanto plataforma descentralizada, vão evoluir? Embora aproximadamente um quarto dos estandes da feira tentasse vender produtos e serviços nessas áreas, havia pouco movimento orgânico e os desenvolvedores citavam, claramente, pouca fé nessas iniciativas.
A pesquisa State of the Game Industry 2023, divulgada durante o próprio evento, mostrou que 75% das empresas não têm interesse em blockchain e cerca de 56% dos desenvolvedores são contrários à tecnologia. Sinceramente, acredito que a maturidade e mesmo a aplicabilidade real dessas tecnologias fora do contexto especulativo vão demorar a florescer.
Por outro lado, ainda que as tecnologias de realidade estendida – termo que abraça a realidade virtual (RV) e a realidade aumentada (RA) – parecessem estar há anos “patinando”, a princípio devido ao custo envolvido e equipamentos desconfortáveis e que ocupam muito espaço, durante a GDC tive acesso a óculos muito leves e confortáveis, que realmente traziam uma experiência significativa, discreta e mais acessível. Destaco o Nreal Air como o mais promissor que utilizei.
O recém-lançado óculos PSVR 2 para PlayStation também me impressionou positivamente, embora o preço ainda seja um obstáculo. O próximo passo da indústria agora me parece ser investir em jogos melhores e que atraiam mais público para essas tecnologias. Agora, dá para enxergar um potencial menos nichado, fora do ambiente do “gamer raiz”, similar ao que aconteceu 15 anos atrás durante a popularização dos controles de movimento como os do Nintendo Wii.
Insisto: precisamos de uma quantidade maior de bons jogos para RA e RV e mais abertos a uma diversidade de público. Durante a feira, o jogo em VR que mais me convenceu foi o Pixel Ripped 1978, que está sendo desenvolvido pela brasileira ARVORE e será publicado pela Atari. Uma experiência ao mesmo tempo retrô e moderna, que, não tenho dúvidas, vai agradar diferentes públicos.
Por fim, precisamos falar sobre metaverso. Uma tecnologia tão promissora e que está ainda desgastada por iniciativas com pouca utilidade e pouquíssimos usuários. Durante a GDC, vi esforços de diversas empresas para propor ferramentas que facilitem a construção de experiências significativas para o metaverso, mas que, principalmente, sejam abertas.
A de maior destaque foi a da Epic Games, empresa do Fortnite, uma das plataformas mais usadas do mundo. Durante a sua talk na GDC, Tim Sweeney, CEO da companhia, descreveu a sua visão para o metaverso: aberto e interoperável, bem diferente dos jardins murados construídos nos últimos anos por Apple e Meta, demonstrando passos reais nessa direção.
As novidades, portanto, são inúmeras e o mercado de games é bastante frutífero. Sempre há potencial para crescer, mas é preciso apostar nas fichas certas.
*Bruno Campagnolo é professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e Coordenador dos cursos de Jogos Digitais.

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