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Helena Levorato

Helena Levorato

Helena Levorato, neurocientista, CEO da Sociedade Brasileira de Inovação (SBI) e fundadora do programa Mulheres Que Inovam.

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O maior gargalo da inovação brasileira não é técnico – e o que aprendi observando quem realmente inova no Brasil

27/03/2026 16:13
Existe uma pergunta que faço com frequência quando converso com lideranças sobre inovação. Não é uma pergunta técnica, mas ela costuma provocar uma reação imediata: Quantas decisões estratégicas sobre inovação vocês tomaram nos últimos meses sem que houvesse uma perspectiva feminina presente na sala?
O mais interessante é que sempre existe aquela pausa constrangedora nesse momento. É quando as pessoas se dão conta de algo que sempre esteve ali, operando em silêncio, sem nunca ter sido conscientemente observado. Nesse momento percebo que essa falta raramente é intencional, mas sim estrutural, e se tornou um padrão tão comum que deixou de ser percebida.
Percebe como esse é um ponto crítico? Enquanto nossas empresas ainda tratam a diversidade como uma pauta opcional, o mundo já avançou o suficiente para entendê-la como um fator direto de vantagem competitiva, de sobrevivência e de futuro. Para que entendam melhor a dimensão da lacuna, hoje, apenas 19,2% dos especialistas em tecnologia no Brasil são mulheres e mantendo o ritmo atual, a paridade só será alcançada em 2110. Foi isso mesmo que você leu…o ano de 2110. Isso nos faz pensar que esses dados não representam apenas uma questão social, mas representam um limite concreto à nossa capacidade de inovar e crescer como país.
Ao longo dos últimos dez anos trabalhando com inovação, comecei a perceber que as organizações que realmente avançam não são necessariamente aquelas com mais recursos ou reputação, mas aquelas que conseguem expandir sua forma de enxergar problemas e sua capacidade de perceber o que ainda não foi visto. E é claro que isso está diretamente ligado à diversidade de experiências e perspectivas presentes nesse ambiente.
Quando você reúne pessoas que percorreram caminhos diferentes, que enfrentaram desafios distintos e que aprenderam a resolver problemas a partir de contextos diversos, a qualidade das decisões muda e o nível de percepção muda. As perguntas também mudam e são justamente essas perguntas diferentes que abrem espaço para soluções mais criativas que antes não existiam.
Eu posso afirmar que essa compreensão não veio da teoria, mas da observação constante e direta em diversos mercados que atuei em nosso país. Ao longo dos últimos anos, eu também tive a oportunidade de trabalhar com milhares de mulheres que estão construindo empresas, liderando projetos e desenvolvendo soluções em diferentes setores, e o que mais me chamou atenção na atuação delas nunca foi apenas a competência técnica, mas sim a capacidade refinada de leitura e entendimento amplo de contexto. Muitas delas desenvolveram, ao longo de suas trajetórias, uma sensibilidade estratégica que permite identificar fragilidades e oportunidades que passam muitas vezes despercebidas em ambientes mais homogêneos. E isso certamente revela algo fundamental: que o maior desafio de um ecossistema não é a falta de tecnologia, mas sim, a falta de acesso pleno ao seu próprio potencial humano.
Quando uma parcela significativa da população encontra barreiras importantes para participar da construção do futuro de uma sociedade, o impacto não é individual. Ele é sistêmico e significa menos soluções criadas, menos problemas resolvidos e menos capacidade de adaptação em um mundo que exige exatamente isso.
Ao mesmo tempo, vejo um novo movimento surgindo e uma nova realidade nascendo, mesmo que lentamente. Cada vez mais, vejo mulheres construindo seus próprios caminhos, criando redes fortes, desenvolvendo negócios inovadores e ocupando espaços que antes pareciam inacessíveis. Podemos enxergar que existe uma nova geração de mulheres que não espera mais por uma autorização para inovar. Elas simplesmente tomam seus lugares e, aos poucos, mudam estruturas, se posicionando no cenário global de inovação, e isso muda tudo.
Certamente, a pergunta mais importante agora não é mais se nós, mulheres, temos capacidade de inovar. O que precisamos decidir é se estamos realmente dispostos a permitir que todo esse potencial finalmente participe da construção do nosso futuro.
O que tenho aprendido ao observar quem realmente inova é simples: O futuro de um país inovador não é construído apenas pelas mentes mais preparadas tecnicamente, mas sim, pelas mentes que tiveram espaço para contribuir plenamente. E é esse espaço que define, no fim, se uma sociedade é capaz de se tornar uma verdadeira potência ou não.