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O ecossistema de fintechs na América Latina demonstra resiliência e capacidade de adaptação, mesmo diante de desafios econômicos e políticos.

Rebecca Fischer

Rebecca Fischer

Rebecca Fischer é co-fundadora da Divibank, fintech brasileira cuja missão é democratizar o acesso ao capital não dilutivo para startups e pequenas e médias empresas (PMEs) na América Latina.

Opinião

Fintechs na América Latina enfrentam desafios, mas seguem promissoras

02/04/2025 17:19
O ano de 2024 se destacou como um período de ajustes e resiliência para o ecossistema de fintechs na América Latina. Após o pico dos investimentos em 2021, que superaram os US$ 20 bilhões, o setor enfrentou uma retração nos anos seguintes.
No entanto, de acordo com dados do Crunchbase, em 2024 o investimento em venture capital (VC) na região registrou um crescimento de 27%, totalizando US$ 4,2 bilhões. Embora esse valor ainda seja uma fração do auge anterior, representa quase nove vezes mais que o registrado em 2014, evidenciando a resiliência e o grande potencial do setor.
No Brasil, a tendência segue na mesma direção. Conforme aponta o relatório da Liga Ventures, até outubro de 2024, as fintechs brasileiras arrecadaram R$ 3,92 bilhões em 50 transações, um aumento de 13% em relação ao total de 2023, que foi de R$ 3,47 bilhões em 61 negócios. Esse crescimento, mesmo com um menor número de rodadas, sugere uma concentração maior de investimentos, provavelmente direcionados a startups com modelos de negócios mais robustos e promissores.
Ainda assim, o mercado de VC na região continua a enfrentar desafios. Dados da Carta indicam que, em 2024, mais de 20% das rodadas de investimento foram down rounds (quando uma startup capta investimento com valuation menor que na rodada anterior), indicando possível queda de valor ou dificuldades, o maior percentual desde 2019.
Além disso, cerca de 40% das rodadas Seed e Série A foram bridge rounds (rodadas de investimento intermediária para estender o capital de uma startup até a próxima captação maior), evitando falta de recursos, o que indica que muitas startups estão recorrendo a extensões de capital para prolongar seu runway (tempo que uma startup pode operar com o capital disponível antes de precisar de novos investimentos) e alcançar marcos que as tornem mais atraentes para investidores em rodadas futuras.
Apesar desses desafios, há sinais de otimismo. As avaliações de startups em estágio inicial, especialmente no Seed, atingiram recordes históricos, com valuations em torno de US$ 15 milhões. Esse movimento pode ser explicado pelo crescente interesse em setores emergentes, como inteligência artificial, que têm revitalizado partes do ecossistema de startups. No entanto, é essencial que os empreendedores mantenham uma abordagem cautelosa, garantindo que suas avaliações sejam sustentadas por fundamentos sólidos e perspectivas reais de crescimento.
O ano de 2025 será um marco importante para as fintechs latino-americanas. Muitas das empresas que captaram recursos em 2021 e 2022 deverão retornar ao mercado em busca de novos aportes. As que adotaram estratégias de eficiência, como a redução de custos e o uso estratégico de venture debt (tipo de financiamento para startups que complementa investimentos de venture capital sem diluir a participação dos fundadores), estarão mais bem posicionadas para atrair investimentos. Por outro lado, startups que não conseguiram demonstrar uma tração consistente ou que enfrentam uma queima excessiva de caixa podem encontrar mais dificuldades.
O ecossistema de fintechs na América Latina demonstra resiliência e capacidade de adaptação, mesmo diante de desafios econômicos e políticos. Para os empreendedores, o momento exige foco na eficiência operacional, inovação e construção de modelos de negócios sustentáveis. Já para os investidores, é fundamental manter um olhar atento às oportunidades que surgem nesse cenário dinâmico, reconhecendo o potencial transformador das fintechs na região.