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Tanto o setor público quanto o privado precisam realizar os investimentos corretos na categoria dos Agêntes Comunitários de Saúde, ajudando cada profissional a ter o treinamento adequado e a tecnologia necessária para impactar diversas vidas. Crédito: Rawpixel.com / Freepik.

Pedro Marton Pereira

Pedro Marton Pereira é CEO e cofundador da _epHealth.

Saúde pública

Agentes Comunitários de Saúde mostram que o ‘Social’ e a ‘Governança’ são tão importantes como o ‘Ambiental’ do ESG

28/03/2024 15:01
Atualmente, o ESG (Ambiental, Social e Governança) vem se fortalecendo em vários âmbitos, mas muitas pessoas entendem a sigla de forma equivocada e olham só para a parte do meio ambiente. É claro que esse é um tópico que merece a nossa atenção, mas também devemos compreender que o “social” e a “governança” regem praticamente todos os setores da sociedade, tornando uma missão prioritária para empresas, entidades e governos a busca por soluções que associam as duas questões. Dentro da área de saúde, um dos exemplos mais evidentes nesse sentido é o do Agente Comunitário de Saúde (ACS).
Segundo o Ministério da Saúde, o ACS “tem um papel muito importante no acolhimento, pois é membro da equipe que faz parte da comunidade, o que permite a criação de vínculos mais facilmente, propiciando o contato direto com a equipe”.
O Ministério da Saúde ainda ressalta que, hoje, a profissão de ACS é uma das mais estudadas pelas universidades de todo o país pelo fato de transitarem por ambos os espaços – governo e comunidade – e intermediarem essa interlocução. O que não é tarefa fácil. Ou seja, estamos falando de uma função absolutamente fundamental e, por isso, ainda tem um longo caminho a ser percorrido para solidificar essa importância.
Os principais motivos desse gap são a falta de um entendimento nacional do impacto dessa profissão e o acesso às novas tecnologias pelos ACS. Em um passado não muito distante, ele era apenas uma pessoa isolada e fragmentada na comunidade, sem suporte ou a tecnologia adequada para agir; hoje, tudo mudou.
Com as novas ferramentas tecnológicas e o desenvolvimento da saúde como um todo, os agentes podem ser ainda mais aproveitados no levantamento de dados e disseminação de informações para a população. Dessa forma, cada paciente passa a ter uma assistência e até um treinamento para uma série de situações, desde as mais simples às graves.
A própria pandemia de Covid-19 é um ótimo exemplo. Os hospitais não foram idealizados para atender 100% da população ao mesmo tempo, e sim casos mais complexos, graves e prioritários. Então como conscientizar toda a população, ajudar de forma proativa a identificar grupos prioritários e dar respostas rápidas e confiáveis lá na ponta direto aos pacientes? Os ACS podem ser (e foram em várias cidades do país) a resposta para isso. Eles representam também uma fonte de informação acessível e confiável justamente pelo vínculo já citado, tanto com a comunidade quanto com o governo.
Não é por coincidência que “saúde e bem-estar” são um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), metas assinadas por diversos países, incluindo o Brasil, para serem estabelecidas até 2030. Tratam-se de fatores inerentes a todos e é dentro dessa lógica que alguns pontos comprovam como o trabalho dos ACS é primordial, mas ainda não atingiu o seu potencial completo.

Quais são os benefícios dos Agentes Comunitários de Saúde?

Quando paramos para refletir sobre sistema de saúde, seja público ou privado, notamos que praticamente todos os profissionais e estabelecimentos estão esperando que seus pacientes os procurem quando sentirem necessidade. Dessa maneira, muitas vezes os pacientes buscam o estabelecimento de forma tardia e em locais errados.
Quando adicionamos o modelo dos ACS para atuar em conjunto ao sistema de saúde existente, ocorre uma revolução no modelo assistencial, no qual, então, é possível ter um alcance proativo na população, contribuindo para diagnósticos precoces, conscientização de saúde, e uma melhor entendimento da logística da demanda de saúde, ou seja, priorizar e alocar melhor os recursos, sejam ele profissionais, equipamentos, ou medicamentos.
Para exemplificar, podemos olhar para pessoas que moram no campo e muitas vezes estão longe de centros médicos de alta qualidade, localizados no meio urbano. Como essa população age quando uma gestante tem a necessidade de realizar um pré-natal? Ou simplesmente fazer exames de sangue?
São em contextos como esses que os ACS viabilizam o acesso à saúde para todos, de uma maneira organizada de acordo com fatores de risco e prioridade. Não à toa, nas próprias comunidades rurais, a procura por esses profissionais deve crescer em 13% até 2030, como estima a Administração de Recursos e Serviços de Saúde.
Ainda vale destacar que, mais do que para a área de saúde em si, o investimento nesta classe abrange outros tipos de benefícios, como o econômico. Isso ocorre tanto pela geração de mais empregos, quanto pelos efeitos da ação desses trabalhadores.
Para se ter uma ideia, um estudo publicado na Health Affairs revelou que cada dólar gasto em pacientes que recebem apoio do programa de ACS da Penn Medicine resultou em um ROI (Retorno Sobre Investimento) de US$ 2,47. A pesquisa aponta que a economia está, principalmente, ligada à redução de hospitalizações.

Como a tecnologia impulsiona a categoria em relação ao “G” do ESG?

Ao abordarmos a digitalização da saúde, podemos melhorar não só a gestão e produtividade desses profissionais, como também gerar novos insights de boas práticas e aprendizados, que sem a tecnologia poderiam se restringir ao contexto local.
É importante entender que na saúde há também algumas limitações, especialmente se considerarmos classes como idosos, crianças e pessoas com alguma limitação física ou cognitiva, que não irão acessar as novas tecnologias por conta própria. É nessa hora que o agente entra em ação novamente com a devida habilidade para utilizar esses recursos tecnológicos, repassar a todos que precisam e colocar o “G” do ESG em prática.
Em plena era de alta da inteligência artificial (IA), há um oceano de possibilidades para potencializar e organizar o trabalho desses profissionais, uma vez que este envolve uma imensidão de dados. Aqui, estamos tratando de informações que vão de normas de conduta no dia a dia a questões que podem mudar a rota de populações inteiras.
Em visitas diárias, por exemplo, o ACS tem a poucos cliques de distância respostas a perguntas básicas, como "quais são as visitas de hoje?" ou "quem corre mais risco de vida e precisa ser priorizado?”. Até mesmo no que diz respeito à qualidade do seu atendimento, há uma melhora automática por conta da facilidade promovida com os canais de comunicação digitais e a chance de realizar feedback em tempo real.
Já quando entramos em uma seara com grupos maiores, os agentes podem ajudar identificando doenças raras, evitando epidemias ou até pandemias. Como trouxe acima, essa é uma vantagem que tende a ser ótima no fator local e regional, entendendo problemas que surgem em uma cidade ou estado e fazendo a contenção antes dele crescer, mas se estruturadas com as ferramentas adequadas tem um poder de transformação nacional e até mesmo global.

O Brasil é um exemplo para os ACS no que se refere ao “S” do “ESG”?

O Brasil tem um dos melhores programas de Agentes Comunitários de Saúde, que impacta tremendamente cada lado da sociedade brasileira. No entanto, historicamente, muitas pessoas acham que o assunto não é tão relevante, ou sequer o conhecem.
Segundo o artigo “Community Health Workers at the Dawn of a New Era”, publicado na Health Research Policy and Systems, da BMC, somos líderes na melhoria de saúde da população com o trabalho desses profissionais, ao lado de Bangladesh, Irã, Etiópia e Nepal. A publicação ressalta que as principais delas foram a eliminação de mortes infantis e maternas e o controle da tuberculose, malária e outras doenças infecciosas.
No início do ano, a Lei 14.536 que regulamenta a profissão também foi sancionada pelo governo. É um movimento que reforça a importância de institucionalizar a função, sobretudo pensando em como ela pode ser essencial para o Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, dos 203 milhões de brasileiros, mais de 75% não tem plano de saúde, ou seja, dependem exclusivamente da saúde pública - sem contabilizar as pessoas têm plano de saúde e ainda são atendidas em Unidades de Pronto Atendimento (UPA) ou em campanhas de imunização.
O ACS é uma das maiores profissões no país e com impacto econômico significativo. Hoje, há 265 mil agentes comunitários, e em 2022, foram empenhados R$ 7,8 bilhões pelo Governo Federal, e para 2023, está prevista a destinação de R$ 9,9 bilhões (o que representa um aumento de 27%), mostrando a crescente importância da categoria.
Em outras palavras, o Brasil é um diamante bruto no que se refere ao desenvolvimento do “S”, do ESG, com os ACS. Estamos muito mais avançados que outras nações no tratamento e aplicação dessa categoria, com tópicos como o processo de recrutamento e seleção da classe sendo tomados como referência por outras nações.

Como Agentes Comunitários de Saúde podem atingir 100% do seu potencial?

Os Agentes de Saúde do Brasil surgiram oficialmente depois da Constituição de 1988, em 1991, e suas origens são na década de 80 no Nordeste, mas é perfeitamente possível dizer que essa é a profissão do futuro. Com os novos rumos que esses trabalhadores ganharam por conta dos avanços tecnológicos, a função tem a chance de ser devidamente tratada como uma engrenagem fundamental da saúde primária e que pode trazer mais segurança à população de todas as partes do mundo.
Com a atuação desses especialistas, qualquer problema de saúde é direcionado pelo lugar certo: pela porta de entrada, não pela saída (os hospitais). É um trabalho que liga totalmente as esferas do cuidado e bem-estar humano, democratizando serviços essenciais para todas as pessoas.
Porém, ainda precisamos liberar 100% da capacidade dos ACS. Tanto o setor público quanto o privado precisam realizar os investimentos corretos na categoria, ajudando cada profissional a ter o treinamento adequado e a tecnologia necessária para impactar diversas vidas.
Desse modo, poderemos chegar a um nível de padronização em que todos teremos a chance de dizer: "tenho um Agente Comunitário de Saúde no meu bairro”. Nessa realidade, não há a menor dúvida de que a compreensão e a aplicação do ESG estarão mais completas, com todas as letras da sigla se complementando com equilíbrio.

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