Marcelo Gripa

Marcelo Gripa

Marcelo Gripa é jornalista, especialista em comunicação corporativa e co-fundador da Futuros Possíveis, plataforma que gera discussões e inteligência sobre futuros.

Mobilidade urbana

O futuro da mobilidade urbana na visão de Tatiana Mattos, líder da BlaBlaCar no Brasil

03/10/2023 18:48
O trânsito nas grandes cidades brasileiras pode consumir mais de 3 horas por dia e impacta diretamente a qualidade de vida. A poluição gerada a partir dos combustíveis fósseis contribui para esquentar (ainda mais) o planeta. Apesar disso, o transporte individual continua forte por aqui e quase 50% das casas têm carro na garagem, segundo dados de 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística).
Para mudar esse cenário, a BlaBlaCar, líder mundial de viagens compartilhadas por meio de caronas, aposta na multimodalidade como presente e futuro da mobilidade urbana. "Isso é feito a partir da maximização do uso de veículos já existentes, em vez de adicionar mais carros, o que contribui para a redução do tráfego, das emissões de carbono e do congestionamento urbano", diz Tatiana Mattos, head da empresa no Brasil, onde o número de usuários passa dos 15 milhões - no mundo todo, são mais de 110 milhões.
O caminho para o futuro imaginado pela BlaBlaCar passa pela economia compartilhada, em que o conceito de posse perde força. "Existe, hoje, uma disposição maior para a economia compartilhada, com o uso de carros de aplicativo e modais como a carona para o deslocamento, e isso vale tanto para transporte quanto para turismo", acrescenta a executiva ao reconhecer que, no Brasil, ainda existe resistência cultural à adoção de novos modelos digitais como o proposto pela companhia.
Nesta entrevista à coluna De Olho no Futuro, Tatiana Mattos fala sobre a visão da empresa para o futuro da mobilidade nas cidades, as ações adotadas para convencer mais pessoas a aderirem à multimodalidade, os desafios no radar - que incluem lidar com a violência urbana e incentivar a adoção de políticas públicas -, e o papel da tecnologia nesse processo.
Qual a visão da BlaBlaCar para o futuro da mobilidade urbana e como a empresa trabalha nessa direção no Brasil?
Tatiana Mattos: Temos uma visão de mobilidade urbana centrada na ideia de compartilhamento e comunidade. Dessa forma, acreditamos que o futuro da mobilidade nas cidades envolverá menos carros particulares nas ruas e mais compartilhamento de viagens entre as pessoas, seja por meio de caronas solidárias ou via ônibus. E isso é feito a partir da maximização do uso de veículos já existentes, em vez de adicionar mais carros às estradas, o que contribui para a redução do tráfego, das emissões de carbono e do congestionamento urbano.
Na BlaBlaCar, acreditamos na multimodalidade como presente e futuro da mobilidade, pois ela garante ao usuário a opção de escolha. Ele pode, por exemplo, se deslocar do ponto A para o ponto B de ônibus, e do ponto B para o ponto C de carona. Essa complementaridade é indispensável em um país de dimensões continentais como o Brasil, em que muitas cidades não são conectadas por serviço público de transporte. Além disso, a economia compartilhada ainda gera benefícios ambientais - as caronas, por exemplo, ajudam a diminuir o impacto das viagens sobre o meio ambiente.
O que observamos em outros lugares, inclusive na França, onde a BlaBlaCar nasceu, é o avanço do modelo de caronas para os deslocamentos diários dentro da cidade, como ida e volta do trabalho, e não só para viagens intermunicipais e interestaduais. Lá, isso também foi possível a partir do incentivo financeiro do poder público, que percebeu a importância de fomentar uma forma de deslocamento que só traz benefícios: tanto para a cidade, porque tende a diminuir o trânsito e a poluição nas ruas, quanto para as pessoas, que gastam menos para se deslocar. Não há previsão sobre a implantação desse modelo no Brasil, mas é um case interessante que temos lá fora.
Por que a noção de comunidade, defendida pela empresa, é importante para o futuro da mobilidade urbana?
Tatiana Mattos: A economia compartilhada nunca esteve tão em voga, em um momento de pressão inflacionária em todo o mundo e, principalmente, de discussões (e ações) para a redução dos nossos impactos sobre o meio ambiente. Ainda há muita margem para aproveitarmos melhor os recursos que temos à nossa disposição, e a mobilidade compartilhada ocupa uma posição importantíssima nessa transformação.
Quando falamos de economia compartilhada, não podemos esquecer de que ela está diretamente ligada ao conceito de comunidade, pois é impulsionada pela colaboração e confiança mútuas dentro de uma comunidade. Essa abordagem econômica visa não apenas maximizar a eficiência no uso de recursos, mas também fortalecer os laços sociais e criar uma rede de apoio entre os membros de uma comunidade.
No Brasil, nós vemos, por exemplo, que as pessoas estão cada vez menos dispostas a tirar habilitação - um estudo divulgado pelo Detran mostrou que nos últimos 6 anos, o interesse dos jovens em ter carteira de motorista caiu 10,5%. Entre as causas, segundo especialistas, também está o valor de veículos, que subiram consideravelmente nos últimos anos, mas está, principalmente, o fator cultural e social: existe, hoje, uma disposição maior para a economia compartilhada, com o uso de carros de aplicativo e modais como a carona para o deslocamento e isso vale tanto para transporte quanto para turismo, por exemplo, a partir das plataformas que permitem que você disponibilize para locação um quarto disponível na sua casa.
As prioridades mudaram e, hoje em dia, as pessoas veem menos valor em possuir algo e preferem priorizar as experiências. Isso porque a economia compartilhada encoraja o consumo colaborativo, em que as pessoas optam por acessar temporariamente bens e serviços em vez de possuí-los. Isso reduz o desperdício e o excesso de consumo.
Quais desafios poderão impedir esse futuro da mobilidade urbana defendido por vocês de chegar no Brasil ou, ao menos, atrasar sua chegada?
Tatiana Mattos: A economia compartilhada, apesar de ter o potencial de democratizar o acesso a bens e serviços, pode enfrentar desafios relacionados à desigualdade de acesso. Nem todos têm acesso igualitário a dispositivos eletrônicos, internet e meios de pagamento, o que pode limitar a participação de algumas comunidades. Além disso, sabemos que o Brasil ainda enfrenta desafios relacionados à infraestrutura e à conectividade em algumas regiões.
Um outro fator também é a resistência cultural, pois as pessoas ainda podem estar acostumadas com modelos de negócios tradicionais. Na BlaBlaCar, por exemplo, percebemos que, assim como aconteceu com diversas plataformas digitais quando chegaram ao Brasil, houve uma resistência inicial dos brasileiros às viagens de carona, por exemplo. Com o tempo, conseguimos mostrar para as pessoas todas as vantagens de compartilhar um carro para viajar. Prova disso é que, em 2022, tivemos recordes em nossos dois modais: em caronas, foram 9 milhões de viagens realizadas em todo o país (um aumento de 50% em relação a 2021); nos ônibus, houve crescimento de 72% no total de passagens vendidas, em comparação com o ano anterior.
Em relação à infraestrutura de transporte, para promover a mobilidade multimodal, as cidades precisarão investir em uma infraestrutura que facilite a transição suave entre diferentes modos de transporte, como caminhar, andar de bicicleta, usar transporte público, ônibus, metrô e veículos compartilhados. Isso inclui a criação de estações de transferência eficientes e a infraestrutura para bicicletas e pedestres.
Além disso, hoje, muitas cidades já enfrentam limitações de espaço, o que torna a expansão da infraestrutura de mobilidade um desafio. O planejamento urbano inteligente e o uso eficiente do espaço também serão essenciais para superar essa restrição. Esses problemas podem dificultar a expansão do compartilhamento de caronas e até mesmo das frotas de ônibus, pois a qualidade das viagens depende da infraestrutura de transporte existente.
Considerando que, no Brasil, muita gente não se sente confortável em pegar carona com desconhecidos, qual o plano da empresa para reverter essa mentalidade?
Tatiana Mattos: Para aumentar ainda mais a confiança em nossa comunidade, estudamos constantemente o desenvolvimento de ferramentas para construir um ambiente de viagem cada vez mais confiável para os nossos membros. No caso das caronas, condutores e passageiros podem escolher com quem vão viajar por meio de ferramentas como verificação de foto, e-mail, telefone e checagem das avaliações quantitativas e qualitativas de cada membro. A BlaBlaCar conta, também, com a ferramenta perfil verificado, disponibilizada após o usuário completar uma verificação em três etapas que conta com checagem de documentos. Além disso, oferecemos suporte ao cliente sete dias por semana.
Existe um plano específico para deixar as mulheres usuárias mais seguras durante as viagens? Se sim, qual?
Tatiana Mattos:  Sabemos que quando alguém faz a pergunta “qual é o seu maior medo quando falamos em mobilidade?”, provavelmente é uma questão que não ressoa para homens, mas faz muito sentido para nós, mulheres, que ainda vivemos uma realidade bem distinta. Na BlaBlaCar, defendemos que as mulheres têm o direito de ir e vir da maneira que quiserem e têm o direito de fazer isso em um ambiente seguro.
Dessa forma, embora as medidas de segurança mencionadas anteriormente se apliquem a todos os usuários,  temos estratégias focadas para que as mulheres se sintam mais seguras para dar e pegar caronas. Na nossa plataforma, a ferramenta “Só para elas”, permite que as mulheres busquem por viagens apenas com outras mulheres. Ela é destinada a mulheres que preferem e se sentem mais confortáveis e seguras viajando apenas com outras mulheres.
Qual o papel da tecnologia nas discussões do futuro da mobilidade?
Tatiana Mattos:  Enxergamos a tecnologia como papel central no futuro da mobilidade. Nesse sentido, acredito que plataformas que possibilitam o compartilhamento de viagens e a complementaridade entre diferentes modais deverão ser cada vez mais protagonistas em discussões, planos e políticas públicas sobre a forma como nos deslocamos. A palavra de ordem de mãos dadas à tecnologia é compartilhar, seja como for o serviço mais conveniente ao nosso cliente.
Não podemos deixar de analisar a importância da inteligência artificial (IA) e big data no dia a dia de plataformas de "Mobilidade como Serviço". Elas desempenham um papel crucial na otimização de sistemas de transporte, ajudando a prever e aliviar congestionamentos, melhorar a segurança e a eficiência das viagens e personalizar as ofertas de mobilidade com base nas necessidades individuais dos usuários. No entanto, é importante destacar que nem todas as tecnologias mencionadas são apenas "hype". Algumas ainda estão em fase de desenvolvimento e regulamentação, o que pode atrasar sua adoção em larga escala. Além disso, a implementação bem-sucedida de tecnologias de mobilidade depende de fatores como infraestrutura, regulamentações e aceitação do público; então, é fundamental distinguir entre o potencial de longo prazo dessas tecnologias e sua viabilidade imediata.

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