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Nathalie Gazzaneo é advogada especializada em políticas públicas e inovação e é diretora associada ao Projeto sobre Força de Trabalho, que produz pesquisa aplicada sobre o futuro do trabalho na Universidade de Harvard, em Boston (EUA).

Marcelo Gripa

Marcelo Gripa

Marcelo Gripa é jornalista, especialista em comunicação corporativa e co-fundador da Futuros Possíveis, plataforma que gera discussões e inteligência sobre futuros.

Mercado de trabalho

A visão de uma brasileira em Harvard sobre o futuro do trabalho

14/07/2023 19:41
Imagine um cenário em que a maioria das pessoas tenha salários dignos e estabilidade financeira, com oportunidades de crescimento na carreira e condições de poupar uma parte do que se ganha. Tudo isso em um ambiente que respeita a diversidade e no qual profissionais sejam, de fato, acolhidos. Imaginou? Essa é a definição de um "bom trabalho" na visão do Instituto Aspen, que lidera estudos na área nos EUA. Parece utópico para você? Não é para Nathalie Gazzaneo, brasileira de Maceió (Alagoas), cujo propósito é combinar desenvolvimento econômico com redução das desigualdades.
Nathalie é advogada especializada em políticas públicas e inovação e é diretora associada ao Projeto sobre Força de Trabalho, que produz pesquisa aplicada sobre o futuro do trabalho na Universidade de Harvard, em Boston (EUA).  Por meio de discussões que unem teoria e prática nas esferas educacional, governamental e de negócios, a iniciativa visa criar caminhos para promover mobilidade econômica a partir de ofertas de trabalho mais qualificadas, um movimento que se traduz na melhoria da qualidade de vida. Isso porque, como diz Nathalie, "um trabalho não é só um trabalho".
Conforme explica o Instituto Aspen, o tema é muito mais complexo do que parece. Para além do bem-estar individual, bons trabalhos levam a uma economia mais competitiva que, por sua vez, fomenta negócios mais bem-sucedidos, permite a construção de comunidades mais fortes, contribui para a prosperidade das famílias e, consequentemente, forma uma democracia mais sólida. É a materialização da chamada prosperidade inclusiva: quando o aumento da produtividade leva ao crescimento de um país, de forma que o maior número de pessoas possa se beneficiar desses ganhos.

Que futuro é esse?

Especialistas ao redor do mundo - e também no Brasil - têm alertado contra os perigos de um futuro do trabalho automatizado e amplificador das desigualdades sociais existentes. Com o rápido avanço da inteligência artificial, o receio é de que muitas pessoas não estejam qualificadas para atender às exigências de um novo mundo cada vez mais movido a dados e intermediado por máquinas.
Segundo o Fórum Econômico Mundial, seis em cada 10 trabalhadores precisarão de treinamento antes de 2027, mas apenas metade dos funcionários tem acesso a oportunidades de treinamento adequadas atualmente. Ao mesmo tempo, o relatório estima que, em média, 44% das habilidades de um trabalhador individual precisam ser atualizadas.
"A preparação para o futuro do trabalho passa pelo letramento digital, que é o aprendizado para manipular ferramentas de tecnologia, desde tarefas mais simples, como uma  comunicação por e-mail, até o uso de inteligência artificial generativa para criar apresentações de trabalho", exemplifica Nathalie.
Num cenário em que as máquinas vão conseguir fazer coisas antes restritas às pessoas, o diferencial, na visão dela, está na capacidade de usar a tecnologia para aprimorar capacidades humanas, como a habilidade de resolver problemas ou se comunicar melhor em uma reunião presencial. Um exemplo é o uso do ChatGPT para realizar pesquisas sobre determinados assuntos e, com isso, ganhar tempo com uma demanda operacional que poderia levar horas acessando sites e fazendo resumos.
"Na lista do Fórum Econômico Mundial, quatro das cinco competências para o trabalho do futuro são sociais. Isso vai exigir transformações na forma como educamos as pessoas,  como as treinamos para força de trabalho e como as empresas assumem a responsabilidade de treinar e retreinar as pessoas", completa.

Exemplos de projetos

Há um crescente interesse que mobiliza empresários, especialistas e políticos sobre a necessidade de unir forças para requalificar profissionais para o futuro. "Ninguém vai fazer isso sozinho", opina Nathalie ao destacar a importância de políticas públicas para endereçar a questão. Segundo ela, já existem projetos bem-sucedidos nos Estados Unidos que resultam da cooperação entre agentes variados.
O IRA (Inflation Reduction Act) é um programa do governo americano que busca posicionar o país na vanguarda das energias limpas, tidas como uma das forças transformadoras da economia global e um dos principais desafios da década. A Lei de Redução da Inflação aborda a crise climática em estados de todo o país e como famílias e comunidades podem se beneficiar de um futuro de energia limpa.
O Chips for America também coordena uma grande missão: fazer o país voltar a ser uma potência na produção de semicondutores, matérias-primas essenciais para a produção de chips em aparelhos eletrônicos. Para isso, como explica o projeto, é importante ter um grupo qualificado e diversificado de trabalhadores para alcançar metas econômicas e de segurança nacional envolvidas.
Outro exemplo interessante é o The-College-to-Jobs, este criado em Harvard. Trata-se de um mapa de dados que avalia a distância entre oferta e demanda, comparando a força de trabalho qualificada, formada pelas universidades, com as oportunidades de trabalho oferecidas em diferentes regiões do país. "A mágica acontece no encontro de um desenvolvimento econômico produtivo suficiente para que haja demanda por bons empregos e a oferta para estes talentos disponíveis", conclui Nathalie.
 Tarciana Almeida é engenheira eletricista com especialização em robótica e engenharia de processos e TI e trabalha na Amazon em Detroit (EUA). Crédito: Divulgação.
Tarciana Almeida é engenheira eletricista com especialização em robótica e engenharia de processos e TI e trabalha na Amazon em Detroit (EUA). Crédito: Divulgação.

Onde a teoria encontra a prática

Tarciana Almeida, engenheira eletricista com especialização em robótica e engenharia de processos e TI na Amazon em Detroit (EUA), é testemunha dos benefícios da união desses dois mundos (teoria e prática) para a obtenção de bons empregos. Também nordestina, oriunda de Lagarto (Sergipe), ela conta que, quando cursava mestrado no Brasil, o contexto socioeconômico não estava favorável para o setor em que atua. Mas a realidade mudou completamente em solo americano, quando ela decidiu migrar os estudos para lá.
"Desde o início, eu tive a oportunidade de estudar e trabalhar já aplicando o conhecimento que eu estava adquirindo na universidade. Foi o grande diferencial que me fez buscar fazer o mestrado aqui [nos EUA]", diz. Logo no primeiro dia de aula, Tarciana relembra que teve uma reunião com o CEO de uma empresa e começou a criar um aplicativo para fazer a comunicação do software dessa empresa com um robô.
Sobre o futuro, "respirando" inovação diariamente na Amazon, uma das empresas que lideram as transformações em curso , Tarciana concorda com a visão de que a tecnologia vai impactar radicalmente o mercado de trabalho e prevê que a IA generativa deverá estar a serviço das pessoas em tarefas do cotidiano. A  busca pelo conhecimento, diz ela, é o caminho para se manter relevante.

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