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Healthtechs: como a pandemia revolucionou a saúde no Brasil

Beatriz Bevilaqua

Beatriz Bevilaqua

Jornalista e Comunicadora de Startups. Formada pela UEL (Universidade Estadual de Londrina), foi condecorada em 2013 pelo Prêmio Sangue Novo no Jornalismo Paranaense, em Curitiba, pelo Sindijor PR e, em 2019 E 2021, como Melhor Profissional de Imprensa do Brasil pelo Startup Awards, maior premiação do ecossistema de startups da América Latina. Instagram @beatrizbevilaqua.

Healthtechs

Startups que salvam vidas: como a pandemia transformou a saúde no Brasil

02/02/2022 12:00
A pandemia exigiu da humanidade inovação, criatividade e colaboração mútua. As healthtechs foram um dos segmentos que mais cresceram neste período. O termo, que tem origem na língua inglesa, é formado pela união da palavra “health” (saúde) com a terminação “tech”, que faz alusão à tecnologia.
Em 2020, o CFM (Conselho Federal de Medicina) regularizou a telemedicina no Brasil, a fim de evitar lotações nos hospitais e postos de saúde. Segundo dados do Saúde Digital Brasil, o serviço online cresceu 316% só naquele ano. A tecnologia e a internet, portanto, se tornaram uma grande aliada para conter a propagação do vírus.
Segundo dados do Distrito, no ano passado as healthtechs obtiveram US$ 530 milhões em 69 aportes, um recorde histórico. Nesta nova série de reportagens, trago um panorama das iniciativas que estão fazendo a diferença desde o início da pandemia e salvando vidas em todo país. 

Quebrando paradigmas 

A HackMed é um hub de inovação para empreendedores e profissionais da área da saúde que surgiu pouco antes da pandemia dentro do maior Complexo Hospitalar da América Latina, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP - HCFMUSP. Para Lilian Harai, fundadora e COO da HackMed, o mercado da saúde sempre foi mais fechado para novas tecnologias. O conceito era de que a tecnologia poderia desumanizar as relações entre médicos e pacientes. Porém a pandemia quebrou este paradigma e acelerou a mudança de mindset.
Equipe HackMed
Equipe HackMed
“A tecnologia em si não é boa nem má. Tudo depende de como vamos utilizá-la. A tecnologia precisa servir como ferramenta para realizar aquilo que nós humanos não precisamos perder tempo ou não conseguimos fazer, para cada vez sobrar mais tempo para sermos aquilo que só nós somos capazes de ser: que é ser humano”, explicou Lilian.
A HackMed lançou um programa virtual de inovação de 4 meses de duração, para ajudar no lançamento de startups. Por ser online, atingiu pessoas do Brasil inteiro, proporcionando o surgimento de startups com pessoas de estados diferentes, que nem se conheciam pessoalmente. "Nestes 2 anos a comunidade atingiu mais de 12 mil pessoas, mais de 100 projetos surgiram nos hackathons organizados e cerca de 30 seguiram nos programas de aceleração”, disse.
Hackathon HackMed
Hackathon HackMed
“Mesmo diante de um mundo vivendo a era da inteligência artificial, deep learning, machine learning, ainda temos médicos que escrevem a receita a mão. O futuro da Medicina já é presente, e hoje, mais do que apenas a tecnologia, vivemos uma era onde ocorre uma mudança no mindset sobre cuidados na saúde. É nesse contexto que vejo as startups como grandes protagonistas dessa transformação”, disse Lilian.

Robôs que humanizam atendimento 

O Hackmed, junto com a healthtech Pluginbot, implementou o uso de robôs de telepresença no HCFMUSP durante o início da pandemia. A parceria tinha por objetivo conectar pacientes que estavam internados, em isolamento, aos seus familiares por meio dos robôs, e realizar teletriagem de pacientes ambulatoriais, com atendimento remoto para não expor as pessoas ao maior risco de contaminação.
Assim, por meio da tecnologia, foi possível humanizar a internação, permitindo que pacientes pudessem ter contato com seus familiares naqueles momentos de grande angústia e sofrimento ou até mesmo de despedida. Os robôs foram protagonistas de momentos de muita emoção. Nos cinco meses que acompanharam a jornada dos robôs no Ambulatório, Enfermaria e PS foram contabilizadas mais de 11.500 interações por telepresença entre pacientes, parentes e profissionais da área.
Hoje a Pluginbot está em diversos hospitais em todo país, trazendo robôs com inteligência artificial, robôs de telepresença e robôs que carregam bandejas e medicações para os quartos de forma automatizada. “A adoção no uso de robôs de conversação e robôs de serviços para o segmento hospitalar tem evoluído porque os robôs podem atuar onde houver restrição ou risco para as pessoas”, disse Spencer Santos, Head de Operações da Pluginbot.
Equipe Pluginbot
Equipe Pluginbot
Os robôs criaram uma atmosfera positiva por contribuírem com experiências mais humanizadas, e os profissionais da saúde perceberam os benefícios que a parceria com essa tecnologia traz. “Só em 2020 importamos mais de 50 robôs e desse montante 65% foi direcionado para uso em hospitais”, explicou Spencer.

A revolução tecnológica de dentro dos Hospitais 

    Na opinião de Giovanni Cerri, presidente da Comissão de Inovação do InovaHC, braço de inovação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), a pandemia acelerou a introdução de novas tecnologias. “A meta é que nos próximos dois anos, 40% das consultas realizadas no Hospital das Clínicas sejam por telemedicina”, disse.
    Giovanni Cerri
    Giovanni Cerri
    Foram desenvolvidos inúmeros projetos ao longo da pandemia, no entanto três iniciativas se destacam. A primeira delas é a plataforma RadVid-19, do Instituto de Radiologia (InRad), que utilizou Inteligência Artificial para interpretar exames de radiologia (do pulmão) e assim acelerar o diagnóstico de Covid-19.
    A segunda é o programa de TeleUTi, liderado pelo Instituto do Coração (InCor), onde foi instalado um posto de telemedicina para apoiar, capacitar e treinar profissionais de saúde que trabalham em UTIs de todo o Brasil, de médicos a enfermeiras e fisioterapeutas.
    "O objetivo foi utilizar a expertise dos profissionais da instituição para orientar o atendimento a pacientes COVID, especialmente em 2020, quando pouco se sabia sobre a doença e era preciso agir rapidamente. Já realizamos mais de 11 mil grupos de discussões via TeleUTI de hospitais com o InCor", afirma Carlos Carvalho, Diretor da UTI Respiratória do InCor.
    A terceira é o Plano de Saúde Digital, uma colaboração do InovaHC com o governo britânico, que engloba 20 iniciativas realizadas em parceria com vários institutos do HC: entre elas, o programa de TeleUTI, além de outras que envolvem teleconsultas, telemonitoramento de pacientes crônicos e digitalização de etapas do atendimento ao paciente.
      Já na iniciativa privada, a Eretz.bio nasceu dentro no Hospital Albert Einstein como uma incubadora de startups de saúde, em novembro de 2017. Hoje, a Eretz.bio é uma das verticais da área de Inovação da organização e ao mesmo tempo um ecossistema de empreendedorismo em saúde - ou seja, um ambiente propício para abarcar startups, patrocinadores, parceiros, empresas de base tecnológica de médio porte, grandes companhias de tecnologia e organizações de financiamento, a fim de trabalharem de forma colaborativa em prol da inovação.
      Incubadora Einstein - Eretz.bio
      Incubadora Einstein - Eretz.bio
      A Eretz.bio atua em três vertentes: saúde digital, que reúne 70% das incubadas; biotecnologia (15%); e dispositivos médicos (15%).
      “A maior parte das nossas startups incubadas têm tido, desde o início da pandemia, uma grande demanda por suas ofertas de serviços e tecnologias, seja por indivíduos, empresas ou instituições de saúde. Várias receberam importantes injeções de capital interessados no fortalecimento e rápido crescimento de suas ofertas de serviços”, explicou Rodrigo Demarch, Diretor Executivo de Inovação do Einstein.
      Rodrigo Demarch
      Rodrigo Demarch
      Desde o diagnóstico do primeiro caso de Covid-19 no Brasil, realizado pelo Einstein em 25 de fevereiro de 2020, o Hospital acompanhou de perto inovações que impactaram a vida da população do Brasil de forma significativa.

      Alguns exemplos de inovação do Einstein são: 

      Proteção do ambiente hospitalar - ENEBRAS que era, até recentemente, uma pequena empresa bem conceituada, que implementava projetos de ar-condicionado em várias companhias e, em particular, no setor de saúde. No contexto da crise da Covid-19, foi chamada pelo Einstein a desenvolver, em conjunto com a Embraer, um equipamento - o ATMUS - que permitisse a rápida criação de pressão negativa em leitos já em operação. A pressão negativa diminui bastante o risco de infecção dos profissionais de saúde. Em cerca de dois meses, mais de 200 destes equipamentos já haviam sido instalados no Einstein, além de dezenas destes em outras unidades de hospitais públicos.
      Outro exemplo é a tecnologia batizada de Fevver, que foi desenvolvida em colaboração entre duas startups (a Hoobox e Radsquare, ambas incubadas na Eretz.bio) para medição extremamente precisa da temperatura corpórea à distância, a partir da combinação do uso de tecnologias de reconhecimento facial, captura de imagens termográficas e inteligência artificial. Esta resultou em totens instalados nas principais entradas de pacientes e funcionários do hospital, logo no início da pandemia, com triagem em tempo real e alto fluxo de pessoas.
      Tele-saúde - Várias iniciativas de serviços de atendimento virtual à distância já existiam ou estavam em fase final de desenvolvimento. A pandemia transformou este tipo de serviço em uma necessidade absoluta e o que se tem observado é um crescimento exponencial em suas vertentes. Além da telemedicina propriamente dita, o Hospital tem a tele-psicologia, a tele-nutrição, a tele-fonoaudiologia e também plataformas virtuais de apoio a pacientes oncológicos e diabéticos, por exemplo. De maneira mais abrangente ainda, as soluções digitais para triagem online, inteligência artificial para análise de imagens radiológicas, ferramentas de monitoramento de pacientes infectados e em reabilitação, softwares de gestão hospitalar, entre outras, contribuem intensamente para o enfrentamento desta pandemia.
      A plataforma para telemonitoramento do Einstein, por exemplo, colaborou e colabora para atender pacientes em regiões remotas com casos de Covid-19 e dar orientações médicas.  Na região Norte, por exemplo, mais especificamente no Alto Rio Negro (AM), um projeto piloto de telemedicina foi implementado, com os Ministérios da Saúde e da Defesa, para atender à população, incluindo populações de cinco comunidades indígenas e de militares do pelotão de fronteira do Exército. A assistência virtual abrangeu diversas especialidades.
      Testes diagnósticos – O Viroma é uma técnica de sequenciamento de nova geração que extrai o material genético de uma amostra de sangue, coletada do paciente, sendo capaz de identificar qualquer patógeno infeccioso sem suspeita clínica. Foi desenvolvido pela equipe P&D do Laboratório Einstein, dentro do escopo de um projeto do Proadi-SUS "Estudos das características epidemiológicas e clínicas das hepatites virais agudas em serviços de saúde brasileiros".
      Por meio deste projeto, recebia amostras de pacientes de hospitais públicos com diagnóstico de hepatites virais de causas não conhecidas. O objetivo da equipe do Einstein era descobrir qual patógeno estava envolvido naquele caso de hepatite grave, podendo ainda mapear os casos de hepatites virais mais comuns no estado de SP. A inovação da ferramenta está na possibilidade de descobrir novas ameaças à saúde pública, além de ser uma alternativa ao RT-PCR:
        A técnica do Viroma gerou reconhecimento internacional no início de 2020 e foi publicada em periódicos internacionais, como a Emerging Infectious Diseases, do Centers for Diseases Control and Prevention (CDC), nos Estados Unidos, e a sequência desse vírus foi publicada no também no NCBI (National Center for Biotechnology Information).
        Também houve reconhecimento por parte de um órgão de vigilância epidemiológica da comunidade europeia, o Human Animal Infections and Risk Surveillance Group (HAIRS). Além do impacto científico, também representou avanço para a ciência, pois o Viroma foi o primeiro exame capaz de identificar as novas variantes do SARS-CoV-2 no Brasil, no início de 2020.

        Perspectivas do mercado de saúde 

        Para Jhonata Emerick, especialista em inteligência artificial e CEO da Datarisk, a área da saúde somada à análise de dados tendo como aliada modernas ferramentas de inteligência artificial, parecem formar a tempestade perfeita.
        Jhonata Emerick
        Jhonata Emerick
        “A busca por experiências e de vínculos mais sólidos com os clientes têm passado por uma jornada de hiper personalização e na saúde não é diferente. Entender profundamente os hábitos do paciente permite o desenho de soluções centradas no mesmo” explicou Jhonata, tendo apoiado alguns projetos em parceria com o Einstein durante a pandemia. 
        Por outro lado, Jhonata explica que o uso de inteligência artificial na área médica tem muito potencial e ao mesmo tempo também tem muitos desafios. “Para fazer uma solução que de fato capture valor, ela precisa fazer parte da rotina do cliente e você pode imaginar o quanto isso se torna complexo em um contexto hospitalar”, ponderou.
        Em todo caso, está claro que a tecnologia se tornou essencial e um grande diferencial nos rumos da pandemia, estando cada vez mais presente no dia a dia da população, clínicas, laboratórios e hospitais. Nas próximas reportagens aqui em minha coluna, vamos trazer mais cases e entrevistas exclusivas sobre outras iniciativas que estão fazendo a diferença e salvando vidas.
        E, se você quiser ler a última série que escrevi sobre as startups brasileiras que trazem soluções para a crise ambiental global, confira aqui.

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        Imagine a possibilidade de criar vídeos realistas com ferramentas de inteligência artificial, como o Sora. Você teria interesse em utilizar uma ferramenta como essa no futuro?

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