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A disrupção da educação no pós pandemia

Beatriz Bevilaqua

Beatriz Bevilaqua

Jornalista e Comunicadora de Startups. Formada pela UEL (Universidade Estadual de Londrina), foi condecorada em 2013 pelo Prêmio Sangue Novo no Jornalismo Paranaense, em Curitiba, pelo Sindijor PR e, em 2019 E 2021, como Melhor Profissional de Imprensa do Brasil pelo Startup Awards, maior premiação do ecossistema de startups da América Latina. Instagram @beatrizbevilaqua.

Educação, Tecnologia e Tendências

Edtechs Revolucionárias: A disrupção da educação no pós pandemia

23/08/2022 19:30
A pandemia trouxe inúmeros desafios para a educação e ao mesmo tempo muitas oportunidades no meio digital, como o aumento da procura por cursos online. Este crescimento evidenciou não só a importância da tecnologia para o setor, mas também alternativas para muitos estudantes e profissionais.
De acordo com os dados do Mapa Ensino Superior no Brasil, o ensino superior da rede privada sofreu uma queda de 8,9% nas matrículas em cursos presenciais durante o primeiro semestre do ano passado, enquanto a modalidade EAD viu a procura subir 9,8% no mesmo período.
Dando continuidade a nossa série sobre as edtechs mais promissoras do Brasil, conversei com startups que surgiram durante a pandemia e estão impactando estudantes em todo o país, com o ensino de música, artes e criatividade. Até mesmo o surgimento da única neouniversidade latino-americana com ensino de tecnologia voltada para a empregabilidade nas maiores empresas do mundo. Também conheci a edtech voltada ao nível técnico e profissionalizante que teve um crescimento avassalador nos últimos dois anos.

Ensino Personalizado 

Você já parou para pensar qual o sentido de ensinar da mesma forma para todo mundo? E que as singularidades de cada estudante fazem a diferença na hora de aprender? Esta é a proposta da Lumi Educação,  uma edtech acelerada e investida pela recifense Overdrives que nasceu durante a pandemia oferecendo cursos online de música, artes e criatividade com uso de IA para a personalização do conteúdo. O lançamento do site aconteceu em 2020, logo depois do lockdown.
Com uso de tecnologia, a plataforma seleciona automaticamente as aulas que mais interessam para cada aluno, baseado no seu perfil, nível e interesses. “Esse é um momento fértil, com muitas possibilidades. Vejo que o ecossistema tem tudo para quebrar concepções que nos dias de hoje não fazem mais tanto sentido,  é preciso pensar no aluno como ser humano e não um número, atualizar conteúdos e processos seletivos, proporcionar mais transdisciplinaridades”, disse Bruno Gafanhoto, CEO da Lumi Educação.
Bruno Gafanhoto e Raíssa Ferreira, fundadores da Lumi.
Bruno Gafanhoto e Raíssa Ferreira, fundadores da Lumi.
O empreendedor concorda que o mercado de investimento em startups, nesse momento, parece menos abundante em relação ao ano passado. Como Paulo Silveira, do Grupo Alura, falou muito bem nesta mesma série: “A educação é um ganho a longo prazo”, então é necessário resiliência para navegar neste cenário.
O foco atual da Lumi é aumentar o alcance dos novos cursos de Desenho, Empreendedorismo Criativo, Foto e Vídeo, Escrita Criativa e outros, com uma sequência de workshops gratuitos de lançamento. A meta é ter até 20 áreas da economia criativa cobertas até o fim de 2022 e 50 até o fim de 2023.
“Hoje temos alunos nas 5 regiões do Brasil, além de França, Portugal e Austrália, e nossa projeção é dobrar este número de usuários até o final do ano. Além disso, acho muito importante frisar que a criatividade, a cultura e a arte têm um papel fundamental na formação de um indivíduo - o aumento do foco, inteligência emocional, senso crítico, facilidade de se expressar e outros, para além do conhecimento técnico”, disse Bruno. 

Primeira neouniversidade tecnológica da América Latina

Hoje evidenciamos que os cursos longos, currículos engessados e dificuldade na aplicação dos conhecimentos à realidade do mercado de trabalho são alguns dos problemas observados nos formatos tradicionais. Como resposta a esse contexto, começa a surgir um novo modelo de universidades no mundo, que vem repensando formatos de ensino e entrega de valor para estudantes e empresas empregadoras. São as chamadas neouniversidades - numa referência ao termo “neobanks”, usado para se referir aos bancos digitais recém-surgidos, que também apostaram na ruptura de padrões.
Algumas das características dessas universidades são o uso intensivo de tecnologia, ensino baseado em resolução de problemas e na criação, flexibilidade e conexão direta com desafios das empresas empregadoras. A Sirius Educação é uma escola especializada na formação e capacitação na área de tecnologia, com foco em Ciência de Dados e Inteligência Artificial. Com escritórios no Vale do Silício e em Belo Horizonte, se posiciona como a primeira neouniversidade tecnológica da América Latina.
“Na pandemia, muitas instituições simplesmente só mudaram a sala de aula pela sala de videoconferência. O uso da tecnologia tem um potencial muito maior de redesenhar para melhor estruturas, métodos e processos de educação. Essa é a proposta da Sirius, como uma edtech de ensino de tecnologia nativa digital”, explicou Arnóbio Morelix, cofundador e CEO da Sirius Educação.
Arnóbio Morelix, cofundador e CEO da Sirius Educação
Arnóbio Morelix, cofundador e CEO da Sirius Educação
A edtech iniciou as atividades em outubro do ano passado com uma proposta de ensino muito conectada com desafios reais das empresas, que têm sentido cada vez mais a falta de profissionais. “É o que chamamos de aprendizado baseado em criação e não no tradicional consumo passivo de informações. Temos um excelente número de empregabilidade: 97% dos nossos estudantes trabalham para empresas  como Google, Ambev, Heineken e Danone. Além disso, hoje temos investidores do Brasil, da Argentina e dos Estados Unidos, que acreditam no projeto”, disse Arnóbio.

Educação, Tecnologia e Futuro do Trabalho

O mercado de tecnologia pode ter seus altos e baixos, mas a transformação do mundo do trabalho segue para ser cada vez mais baseada em tecnologia, cada vez mais digital, inclusive com automação de muitos trabalhos, é a tendência dos próximos 20 anos.
“Estamos em um importante momento de transformação, que não é algo recente e vai acontecer de qualquer forma, independente do ciclo de capitais no mundo”, diz Arnóbio,  CEO da Sirius.
De acordo com um estudo da McKinsey, estima-se que até 2030 a falta dessa mão de obra em tecnologia chegue a 1 milhão de vagas não preenchidas no Brasil. A Sirius entende que existe uma oportunidade muito grande aqui para formarmos profissionais conectados com o futuro do mercado de trabalho e que ajudem a suprir essa demanda.
“Vemos diversos movimentos do setor de edtech nessa direção, em diferentes aspectos. Podemos olhar para empresas tradicionais e a transformação digital estrondosa que elas estão passando. Se pegarmos, por exemplo, a Ambev, que é uma empresa brasileira, ela criou dentro de casa o Bees, um dos maiores, senão o maior, e-commerce B2B do mundo. É impressionante!”, enfatiza Arnóbio.
Para o CEO, hoje estamos vivendo uma revolução industrial que ainda não teve sua revolução educacional. O contexto dessa revolução é simples: hoje temos milhões de pessoas desempregadas no mundo e milhões de vagas sobrando, principalmente pela falta de profissionais qualificados em tecnologia. A tendência é que o avanço tecnológico siga substituindo em massa cada vez mais empregos de baixa qualificação, ao mesmo tempo em que cria novos postos de trabalho de alta qualificação tecnológica.
“Queremos qualificar mais pessoas para ocuparem esses novos espaços. A aceleração e transformação do modelo educacional com foco em tecnologia é tão urgente quanto necessária no país”, conclui o especialista.

O Ensino Sem Distância 

E não é somente as universidades que devem mudar nas próximas décadas, o ensino técnico e profissionalizante também. A Nubbi desenvolveu um conceito exclusivo no mercado, o Ensino Sem Distância - ESD, oferece educação por meio de uma metodologia simplificada e uso de recursos tecnológicos, lúdicos e interativos; com a finalidade de aproximar cada vez mais o aluno do conteúdo que ele precisa assimilar. A empresa oferece educação de nível técnico e profissionalizante desde 2018, mas foi durante a pandemia que o negócio ganhou ainda mais espaço no mercado.
“A pandemia provou o que o mercado já vinha procurando demonstrar antes de sua chegada: que é possível ter uma experiência de ensino-aprendizagem de alta qualidade no online. Quando todo o globo se viu forçado a parar, ensinar a distância não era mais uma opção, mas uma questão de sobrevivência. Quem já havia dado passos largos nessa direção antes disso, saiu na frente”, disse Marcus Lemos, CEO da Nubbi.
Marcus Lemos, CEO da Nubbi
Marcus Lemos, CEO da Nubbi
Em 2021, a edtech realizou R$ 9 milhões em vendas e obteve faturamento bruto de R$ 6 milhões;  em 2022 projeta vender R$ 15 milhões e alcançar faturamento bruto de R$ 10 milhões. Até o primeiro semestre deste ano, o crescimento em vendas e faturamento foi superior a 70%, na comparação com o mesmo período de 2021. Com alunos em mais de 10 países, os cursos da Nubbi estão disponíveis para o acesso de 3,6 milhões de pessoas.

Parcerias com o Governo & Políticas Públicas

Em 2021, a Nubbi realizou em parceria com a Prefeitura Municipal de Poços de Caldas, cidade sede da edtech, o projeto "Poços Juro Zero", uma iniciativa que teve como intenção fomentar o empreendedorismo e promover o desenvolvimento da economia local, durante a pandemia de Covid-19. O programa consistiu na disponibilização de uma linha de crédito de até R$ 15 mil, por meio de parcerias com instituições financeiras. O critério para a disponibilização desse valor era a realização de um curso desenvolvido pela Nubbi, um conteúdo de educação financeira com foco no desenvolvimento de micro e pequenos negócios.
O programa foi responsável por 1.010 empréstimos e injetou mais de R$ 13 milhões na economia da cidade. Foi uma iniciativa responsável pela recuperação financeira do município e fomentação de novos negócios. “Uma ação que demonstrou a importância da educação para a gestão de micro e pequenas empresas e as consequências positivas do ensino de qualidade”, disse Marcus. O acesso ao crédito sem inteligência financeira e de negócios pode resultar em mais dívidas e nesse ponto a capacitação dos participantes por meio do curso da Nubbi foi fundamental para os resultados obtidos.

O futuro da educação

Para o CEO da Nubbi, as novas edtechs conseguirão tornar o processo de ensino mais próximo dos alunos, disruptivo e terão forte impacto no mercado de trabalho, uma vez que poderão levar os alunos à execução prática do aprendizado, trazendo-os para a realidade das profissões e entregando conteúdos que se adequem à realidade das empresas.
“Atualmente, a educação online tem um foco excessivo em videoaulas, que na maioria das vezes não consegue transmitir a profissão na prática, um fator indispensável para as necessidades do mercado de trabalho. Para o futuro, as habilidades práticas serão cada vez mais exploradas neste mercado e o online sairá do campo apenas teórico, por meio de tecnologias como a realidade aumentada e o metaverso, ajudando o aluno a chegar mais preparado para trilhar uma carreira”, disse Marcus.
Siga acompanhando a nossa série sobre as edtechs aqui no GazzConecta, a cada semana traremos mais cases que estão revolucionando a educação no Brasil.

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