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Camila Farani

Proteção de dados

“Amor” pelos dados: o perigo que escondem os aplicativos de encontros

01/03/2020 10:05
O Carnaval passou e muita gente certamente utilizou os aplicativos de relacionamento para tentar encontrar o amor de sua vida — ou de sua noite. Tinder, Happn, Badoo, Grindr, Lovoo, Match, Once, Bumble e outras dezenas de apps surgiram nos últimos anos e, em certa medida, modificaram as estruturas dos encontros amorosos, principalmente nas gerações mais jovens.
Mas o que nem todos sabem é que, enquanto você abre um aplicativo de relacionamento à procura do par perfeito para marcar um encontro e tentar preencher este vazio que te angustia, os apps de paquera também estão sedentos por você. Só que o que eles amam mesmo são os dados que sua jornada pode gerar.
Apesar de as empresas resistirem em abrir muita informação sobre o funcionamento de seus algoritmos, algumas medidas já instituídas por leis como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) podem nos ajudar a saber mais sobre isso.
Vamos começar pelo básico. Quando o usuário preenche o campo no qual autoriza de forma explícita que concorda em compartilhar seus dados, já era! A empresa que desenvolveu o app terá em seu big data o gênero, orientação sexual, dados de localização, afiliação política e religião, além de fotos e vídeos. E existem recursos positivos neste sentido. O Bumble, por exemplo, usará inteligência artificial para rastrear e bloquear preventivamente imagens que possam ser obscenas.
Estava lendo uma matéria no site da Recode que conta exatamente esta história, eles fazem até um jogo de palavras de “date” (encontro) com “data” (dados). O que acontece é que os modelos de negócios destas plataformas ficam mais poderosos conforme conseguem acumular mais dados. Só assim conseguirão fazer recomendações — de namorado ou de anúncio — muito mais assertivas e pertinentes a cada perfil.
E para pertinente entenda-se até mesmo filtragens altamente polêmicas, com base em etnia, "tipo de corpo" e antecedentes religiosos. Os apps de namoro usam algoritmos para te dizer quem é mais compatível com você. Mas quem disse que isso define quem vai ser melhor para a sua vida?
E tanta informação sempre dá margem a abusos por parte de algumas empresas. Companhias já foram acionadas na Justiça por acessar informações sobre critérios questionáveis para indicações, como as doenças que os usuários possuíam, ou suas opiniões políticas e etnias, que seriam utilizadas para fazer uma publicidade mais direcionada.
Outros problemas envolveram vazamentos de mensagens tidas pelos apps como seguras e golpes, como assumir a identidade de outra pessoa apenas incluindo um número de telefone. Outro detalhe sobre a privacidade: nas letras miúdas dos contratos dos apps que a maioria das pessoas aceita sem ler, as políticas de privacidade dessas empresas as autorizam a entregar os dados à Justiça em casos de ordem judiciais.
Caso o usuário opte por integrar o perfil à sua conta de outras redes sociais, então, de modo a economizar o tempo de preenchimento dos campos de informações ou mesmo tornar as sugestões mais pertinentes, então a empresa desenvolvedora do app vai mesmo mergulhar de cabeça na sua vida.
Uma boa dica é: se os apps utilizam seus matches anteriores para sugerir correspondências futuras, então tome cuidado para não entrar em grandes bolhas de pessoas de perfis compatíveis se relacionando. Quem sabe não é hora de revezar o uso do app e dar uma chance para alguém bem diferente de você, selecionado sem a ajuda de nenhuma tecnologia?
Tem uma reportagem bacana no jornal britânico The Guardian. A jornalista Judith Duportail ficou curiosa para descobrir o que o Tinder sabia sobre ela. Então, utilizando as novas regras da LGPD na União Europeia, perguntou ao Tinder: “o que vocês sabem sobre mim?” O retorno veio em forma de 800 páginas impressas de informações sobre ela, incluindo todas as “curtidas” que ela fez na vida, o número de amigos do Facebook que ela tinha e com quais havia interagindo, passando pelo teor das conversas que ela teve com todos os encontros que teve nos últimos anos.
Quem também se sentir curioso e quiser recapitular suas aventuras dos últimos anos pode entrar em contato com o Tinder pedindo o mesmo material. E deve ter uma sala no Tinder apenas para guardar os arquivos dos brasileiros, que adoram esta forma de se relacionar.
A empresa divulgou no final do ano passado que chegou a 10 milhões de usuários brasileiros. De acordo com o Match.com, o Brasil é o 5º maior mercado do app. Nos Estados Unidos, outra potência dos apps de namoro, calcula-se que um terço dos homens já tenha testado um date através do Tinder. E, desde que haja a consciência — e a permissão — por parte dos usuários, não há problema nisso. Está tudo bem.
Então, passado o Carnaval, procure usar esses aplicativos com moderação. Lembre-se que a paixão verdadeira deles é pelos seus dados. É como diz a letra de "Falso Amor Sincero", de Nelson Sargento, um dos maiores nomes da história do carnaval brasileiro: “O nosso amor é tão bonito, ela finge que me ama e eu finjo que acredito”.

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