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As agtechs têm influenciado a maneira como pequenos produtores e grandes empresas do agronegócio atuam, do ponto de vista de inovação, novos processos, eficiência produtiva e sustentabilidade. Crédito: Canva.

Startups dedicadas ao agronegócio

Raio-x das agtechs: como é o cenário atual e para onde vai a inovação agrícola no Brasil

Maria Clara Dias
Maria Clara Dias
29/04/2024 17:29
Para os entusiastas e também para os mais familiarizados com o ecossistema de inovação brasileiro, não é novidade alguma que a tecnologia já invadiu o dia a dia no campo. A relevância das agtechs, startups dedicadas ao agronegócio, tornou-se pauta decisiva nas discussões sobre o futuro da tecnologia no ambiente rural. Com atributos que vão de ferramentas tecnológicas à inovação em processos, essas empresas têm influenciado a maneira como pequenos produtores e grandes empresas do agronegócio atuam, do ponto de vista de inovação, novos processos, eficiência produtiva e sustentabilidade.
A popularidade dessas empresas é comprovada pelos números. Atualmente, o país tem 769 agtechs. Os dados são do Agtech Report, levantamento da plataforma de inovação Distrito lançado em 2023. O relatório, que se propõe a ser um verdadeiro “raio-x” da indústria, também mostra que, a partir de 2014, houve uma rápida aceleração do número de fundações de empresas tech no segmento. Naquele ano, o total de agtechs era de 80. Três anos depois, era de 105. E seis anos depois, esse número se multiplicou por sete.
Não à toa, o Brasil ocupa papel decisório no futuro das agtechs em toda a América Latina. Seja devido ao seu protagonismo na indústria agrícola como um todo, ou até mesmo a vasta extensão territorial, o país é, hoje, o principal mercado de startups de agronegócio, com 76,5% do total, seguido por Argentina e Colômbia, com 8,3% e 4,3% respectivamente. O agronegócio brasileiro tem sido o motor da economia do país nas últimas décadas, o que motivou produtores a adotar rapidamente novas tecnologias para tornar processos cada vez mais ágeis e sustentáveis.
Dados de um outro relatório lançado em 2023, o estudo Radar Agtech, mapeamento do ecossistema feito pela Embrapa, SP Ventures e Homo Ludens, apontam para um mercado ainda mais amplo. De acordo com o estudo, existem hoje 1.953 agtechs no país, e essas empresas estão concentradas principalmente nas regiões Sudeste (56,9%) e Sul (26%).

O que os investidores procuram

O cenário de investimentos para agtechs segue promissor na América Latina, com destaque para o Brasil, que concentra quase 80% de todo o investimento na região. Segundo o Distrito, desde 2017, quase US$ 650 milhões foram investidos nas agtechs latino-americanas.
O ano de 2022 registrou recorde no volume de investimento e quantidade de deals em relação a anos anteriores, com mais de US$ 273 milhões aportados em startups do setor. O cenário contrastou com a tendência do mercado tradicional de venture capital, que apresentou um declínio no volume de investimentos no mesmo período.
Com um mercado de venture capital mais enxuto, é esperado que teses de investimento sejam reconfiguradas — o que também impacta o agronegócio. Seguindo uma tendência histórica e global, o setor de agtechs deve ser inundado por investimentos em tecnologias emergentes, como as voltadas à eficiência produtiva e ao desenvolvimento softwares e sensores para monitoramento agrícola. Por outro lado, é esperado que aportes em startups do setor que se dedicam a tendências pontuais do mercado (e que são diretamente impactadas pela alta no preço dos insumos), como alimentos inovadores, apresentem certa retração no volume de aportes.
De acordo com o Agrifoodtech Investment Report 2023, também elaborado pela SP Ventures e AgFunder, quatro grandes teses de investimentos relacionadas aos grandes subsegmentos de agtechs devem continuar atraindo grande parte do fluxo de capital globalmente no futuro. São elas:
  • AgFintechs: startups que usam de tecnologia para desenvolver produtos e serviços financeiros a agricultores e agroempresas em dores elementares do setor agrícola, como o acesso ao crédito e seguros. Elas também recorrem a ferramentas de análise de dados e de gerenciamento de riscos para criar produtos personalizados e que compreendam nuances clássicas do agro, como a influência do clima.
  • AgBiotechs: startups que desenvolvem soluções biológicas (como vírus, fungos ou bactérias e microbiológicos ou macrobiológicos, como vespas e ácaros) para potencializar a indústria agrícola e ampliar a produtividade e equilíbrio biológico no combate às pragas no campo.
  • Marketplaces: espaços virtuais para a compra e venda de produtos. Na indústria agrícola e de alimentos, segundo o relatório, os marketplaces serão cada vez mais promissores, já que oferecem uma maneira simples para agricultores e produtores comercializarem seus insumos, contornando desafios de distribuição e interferência de intermediários e, assim, reduzindo custos.
  • Climatechs: empresas que, com tecnologia, atuam para a redução dos impactos do aquecimento global e dos Gases do Efeito Estufa (GEE). Alguns dos nichos mais comuns são os de rastreabilidade, gestão da água e neutralidade de carbono focadas em setores relevantes da economia como mobilidade e transporte, energia e construção civil.

Vocação para a inovação regional

O Radar Agtech, da Embrapa, também se debruçou sobre as principais especificidades das agtechs e buscou dosar os níveis de inovação na cadeia agrícola brasileira. Um dos achados é de que a região Sul do país concentra um alto número de agentes impulsionadores para o ecossistema de startups do agro. Segundo o estudo, existem, atualmente, ao menos 36 parques tecnológicos, cinco aceleradoras, nove incubadoras e oito hubs de inovação dedicados ao fomento de startups na região. O total supera o número absoluto de agentes presentes na região Centro-Oeste, por exemplo - epicentro da agricultura brasileira.
A predisposição para alavancar os ecossistemas regionais de inovação, especialmente no setor agrícola, é uma característica comum do mercado de tecnologia no agronegócio, conforme mostra o AgTech Report, do Distrito. Segundo o estudo, o Brasil - na contramão de outros países da América Latina - se destaca pelo grande número de startups do agro em regiões próximas aos seus mercados consumidores, como os campos e cidades de menor porte. A lógica contraria o padrão mundial, que consiste na presença de startups em grandes metrópoles.

Para onde vão as agtechs do Brasil?

As mudanças climáticas estão no centro das discussões do setor agrícola. Cada vez mais, empresas do setor e pequenos produtores precisam considerar nuances climáticas em seu dia a dia. Com isso, passam a inserir dados para análise de riscos e adotar sistemas eficientes para rastreamento da cadeia produtiva com o intuito de dar mais transparência aos consumidores preocupados com o impacto ambiental causado em cada etapa do processo.
Por este motivo, subtemas como agricultura de precisão, biotecnologia, monitoramento agrícola, sustentabilidade e rastreabilidade devem nortear o setor nos próximos anos, sendo algumas das principais tendências para a indústria de agtechs. Estar a par dessas tendências e inovações dependerá, em boa medida, da adoção de tecnologia para a criação de modelos de negócio inovadores e herdados de outros mercados que já as adotam de maneira bem-sucedida. Alguns exemplos são as soluções baseadas em assinatura, consultoria de dados, plataformas digitais e na nuvem e serviços especializados.

Desafios

Para especialistas, a conectividade no campo continua sendo um dos principais entraves para o avanço desmedido das agtechs no país. Basta, segundo eles, considerar os níveis de adoção tecnológica a depender de diferentes culturas e características regionais.
De acordo com dados do Ministério da Agricultura, cerca de 73% de propriedades rurais ainda carecem de acesso básico à internet. O cenário coloca à prova a capacidade de crescimento de startups que, naturalmente, precisam apoiar-se em tecnologia para crescer. Esse também configura um dos desafios para o avanço de tecnologias de ponta, como inteligência das coisas (IoT) e inteligência artificial, nos campos.

E o unicórnio?

Na corrida dos unicórnios, nenhum representante do agronegócio foi coroado no Brasil até o momento. Especialistas apontam para uma constante batalha pelo ganho de maturidade, especialmente quando são consideradas as rodadas de captação envolvendo essas empresas - atualmente, a maior parte dos rounds envolvendo agtechs está limitada às séries A, B e C.
Contudo, algumas startups de destaque já atraíram a atenção de investidores nos últimos anos, como as brasileiras Agrotools, Agrolend, Agrofy e Solinftec, detentoras das maiores rodadas de venture capital desde 2020 e fortes candidatas a assumirem o posto de primeiro unicórnio do agronegócio no Brasil.

E vem aí o GazzSummit Agrotechs

O GazzSummit Agrotechs é uma iniciativa pioneira do GazzConecta para debater o cenário de inovação em um dos setores mais relevantes do país. O evento será realizado no dia 15 de agosto de 2024 com o propósito de conectar e promover conhecimento para geração de novos negócios, discussão de problemas e desafios, além de propor soluções para o setor.
O GazzSummit promove a disseminação de tecnologias e práticas de inovação que possam levar a cadeia produtiva ainda mais longe. Uma programação intensa de 12 horas de conteúdo, e mais de 25 palestrantes, espera os participantes que poderão interagir com players importantes do ecossistema como grandes empresas, cooperativas, produtores, entidades públicas, startups e inovadores. Garanta sua vaga no site.

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