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Após completar um ano desde seu lançamento, em novembro de 2022, o ChatGPT continua influenciando o avanço da inteligência artificial generativa. Crédito: Freepik.

Inteligência artificial

Depois do “boom”, para onde vai a IA generativa — e qual o impacto da tecnologia no mercado brasileiro?

Maria Clara Dias
Maria Clara Dias
17/01/2024 16:59
Há pouco mais de um ano, o mundo parava para observar os primeiros passos de um crescente burburinho envolvendo um tema até então pouco explorado: a inteligência artificial generativa, ou IA generativa. O assunto ganhou evidência após o lançamento do ChatGPT, recurso da empresa americana OpenIA.
À época, a capacidade de responder de maneira imediata a perguntas complexas, traduzir longos textos ou compor redações em questão de segundos tornou-se um grande “hype”. A interação conversacional - e com um teor de “sabe-tudo” da tecnologia - despertou o interesse e a curiosidade de pessoas por todo o mundo. De empresas a pessoas físicas, o ChatGPT ultrapassou, em tempo recorde, a marca de 1 milhão de usuários.
Meses depois, é possível afirmar que a tecnologia não mais engatinha. A popularidade do ChatGPT abriu espaço a alguns avanços envolvendo a IA generativa de modo geral, incluindo o desenvolvimento de soluções de grandes companhias de tecnologia, o que deu palco a uma verdadeira corrida contra o tempo em favor do desenvolvimento ágil de ferramentas preditivas entre empresas rivais. Alguns exemplos são o Bard, do Google, ou o Copilot, da Microsoft.

O que mudou desde então?

Após completar um ano desde seu lançamento, em novembro de 2022, o ChatGPT continua influenciando o avanço da inteligência artificial generativa, agora utilizada em larga escala por companhias que buscam tomadas de decisão mais assertivas e mais eficiência em seus processos gerenciais. Os holofotes, agora, estão voltados para a fase atual da tecnologia, e também sobre as possíveis consequência de seu uso — ainda em estágio inicial em muitos países.
De chat “responde-tudo”, o ChatGPT se tornou uma ferramenta quase indispensável de gestão a companhias de setores e tamanhos diferentes. Um exemplo está no uso de algoritmos em processos seletivos, ou até mesmo em chats de atendimento ao cliente, duas aplicações que buscam poupar o tempo dedicado a tarefas operacionais e repetitivas.
Para o economista e professor de inteligência artificial em saúde na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), Alexandre Chiavegatto, o ChatGPT trouxe consigo uma revolução que não compreende apenas a interface tecnológica, mas sim a acessibilidade. “A grande inovação está na interface conversacional no ChatGPT, o que tornou em algo mais palatável para população”, explica.
A população sempre usou IA, mas como parte de outros softwares e interfaces, como nas redes sociais e seus algoritmos que predizem o que você quer ler ou ver. Mas ninguém pensava antes em pedir ajuda a uma IA. Com o ChatGPT isso foi incorporado ao dia a dia
, diz.
Para ele, o que mudou neste um ano, na prática, foi a disposição das pessoas em, de fato, incorporarem IA às suas rotinas, ao invés de apenas serem usuárias indiretas. Chiavegatto, que é também articulista sobre o assunto, afirma que, após uma adoção inicial da tecnologia em 2022, é possível esperar avanços da IA generativa no Brasil, especialmente na gama de setores dispostos a incluírem a tecnologia em seus processos - e profissionais que desejam ser mais competitivos.
O avanço, porém, esbarra em alguns desafios ligados à regulamentação e incentivo ao desenvolvimento dessa tecnologia no país, ele afirma. “Ainda estamos em um momento imaturo no Brasil em relação à IA. Mas já vemos alguns setores promissores e que já incorporam algoritmos no seu dia a dia, como a saúde”, diz.
Em entrevista ao Gazz Conecta, o especialista comenta os principais avanços da tecnologia no último ano, e destaca as tendências mais relevantes, bem como os desafios que estão por vir para os desenvolvedores, usuários e órgãos reguladores, responsáveis por estabelecer os limites - até então desconhecidos - da tecnologia. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista:
Para 2024, na sua opinião, o tom de curiosidade sobre o potencial da tecnologia deve ser deixado de lado, para dar lugar a debates mais profundos sobre as aplicações variadas da IA?
Alexandre Chiavegatto: Agora que a população passou a se dar conta do potencial da IA, a tendência é que, cada vez mais, ela se torne uma realidade no dia a dia das pessoas. Ela deixou de ser vista como algo de ficção científica, de um futuro distante, para algo já real. Isso tem aberto a cabeça não só das pessoas, mas também das empresas sobre o potencial da tecnologia que já temos hoje para melhorar processos e decisões no dia a dia. Diria que essa é a principal tendência para este ano: o fato de todos se darem conta do que a IA pode fazer e no que ela já pode auxiliar, e como isso será incorporado nas diferentes profissões, ajudar a resolver problemas e ampliar a eficiência das decisões.
Para além das big techs e líderes de mercado que já estão apostando alto nessa tecnologia, qual é sua análise sobre a adoção de IA  por empresas de diferentes segmentos e portes?
Alexandre Chiavegatto: O potencial de uso está em todas as áreas, mas a que será mais beneficiada será a área da saúde. Hoje, os hospitais já usam IA para melhorar a eficiência de suas decisões administrativas. Por exemplo, a organização da fila de pacientes. O algoritmo de IA pode prever qual será o tempo necessário para o atendimento de cada paciente específico e, com isso, o aloca de forma mais eficiente entre os especialistas.
Outro uso está na alocação de recursos físicos e humanos nos hospitais, como a divisão de quantos leitos de UTI serão necessários em uma sexta-feira, por exemplo. Isso depende muito das características dos pacientes que estão sendo atendidos, e o algoritmo consegue entender, com base nisso, a quantidade de leitos que um hospital irá precisar. Muitos hospitais e operadoras de saúde já estão usando IA no seu dia a dia para otimizar essas decisões. Eventualmente, ele também chegará na prática clínica, ajudando médicos em diagnósticos e prognósticos de pacientes.
Como você avalia a adoção de IA generativa no Brasil hoje? Em que áreas ela é mais comum e onde ainda há muito potencial para avançar?
Alexandre Chiavegatto: Em todas as áreas nas quais a tomada de decisões inteligente gera valor para as empresas e profissionais. No caso da área da saúde, por exemplo, é comum o uso da IA generativa para tirar dúvidas em possíveis diagnósticos de pacientes, tratamentos, intervenções, entre outras coisas. Então, os algoritmos são úteis para todas as áreas que coletem e usem dados difíceis. Elas serão transformadas por esses algoritmos que aumentam a capacidade humana e amplificam o potencial criativo e produtivo dos profissionais.
Deixando de lado os avanços, também há desafios gritantes no que diz respeito à popularização da IA. Privacidade, e custos são alguns deles. Mas há algum desafio ligado à regulação?
Alexandre Chiavegatto: Alguns países como Brasil têm lidado com a questão da regulação de forma imatura e precoce. Ainda estamos na pré-história dessa tecnologia. Fomos o segundo país do mundo a sugerir uma lei para regulamentar a IA. O primeiro foi Tawain, e já desistiram. Então, o Brasil é o país mais apressado em regulamentar a IA, uma área que ainda está no início e não sabemos como ela vai evoluir nos próximos meses. É difícil regular uma tecnologia que será usada para absolutamente tudo. É como querer regulamentar o uso de um prego. Se você usa um prego em uma arma de fogo, é um risco alto. Mas se você usar em uma mesa, o risco é baixo. Ou seja, é difícil regulamentar a tecnologia, mas é preciso regulamentar as consequências desse uso.
Em que pé está o Brasil, comparado a outros países, quando falamos em usufruir ao máximo do potencial e, também, regulamentar a IA?
Alexandre Chiavegatto: Ao mesmo tempo em que está apressado para regulamentar a IA, o Brasil está extremamente atrasado em relação ao incentivo à IA. Somos o único país do mundo que não tem uma estratégia nacional de IA, e não ouvimos falar de nenhuma movimentação nesse sentido, de investimento nesta área. O Brasil está no caminho contrário à maioria dos países, que têm criado grandes polos de IA e de incentivos. O que vemos, na realidade, são tentativas de restrição a essa área, que sabemos que irá impactar todo o mundo.
Como você enxerga o cenário como um todo, da variedade de usos da IA em diferentes funções à adoção por pessoas físicas e empresas, nos próximos anos?
Alexandre Chiavegatto: É inevitável que muitas empresas e pessoas fiquem para trás. Hoje, o potencial da IA já está bastante claro, mas muitas pessoas são avessas às mudanças. Essas pessoas e empresas ficarão para trás.
Uma pesquisa de 2023 mostrou que 12% dos CEOs brasileiros não pretendem investir em IA nos próximos anos - essas serão empresas que inevitavelmente ficarão para trás. Mas, de modo geral, as pessoas já estão se dando conta e passam a utilizar os algoritmos. Então, essas empresas e profissionais que não usam IA vão cair nos próximos meses, porque é inevitável, já que tudo que fazemos é baseado em aprendizado e predição. E esses algoritmos conseguem aprender com milhões de dados, eles não se esquecem, eles conseguem entender nuances imperceptíveis ao cérebro humano e auxiliam em áreas que demandam coleta de dados. É um caminho inevitável: a mão pesada do mercado nunca falha. Teremos que nos adaptar a uma ferramenta que melhora decisões.
Muito se fala sobre o gigantesco "gap" de tecnologia que temos no Brasil - e da ausência de profissionais. Além disso, há também a fuga de cérebros para países onde o desenvolvimento da tecnologia está mais avançado. Você vê a alfabetização e formação de mão de obra como um obstáculo para o avanço dessa tecnologia (e desse mercado) no Brasil?
Alexandre Chiavegatto: O Brasil está em uma posição privilegiada em relação ao potencial do crescimento da IA. Temos uma população bastante otimista em relação à nova tecnologia e em relação à ciência. Até mesmo durante a pandemia de Covid-19, o Brasil estava bem melhor posicionado que muitos países em relação à ciência  e tecnologia. Também existe o potencial de trabalhar remotamente na área de tecnologia. Vemos que, na medida em que empresas mantêm um ritmo lento de adoção de IA, muitos profissionais brasileiros passam a trabalhar remotamente para empresas internacionais. Os países de fora estão atentos ao potencial desses profissionais da área de IA. Os Estados Unidos lançaram uma iniciativa recentemente, por meio de um decreto oficial em seu projeto de IA, em que um dos principais pontos é facilitar a obtenção de visto de especialistas de IA para trabalharem lá. Então, enquanto vemos o Brasil tomando uma posição de restrição, também vemos países pegando o caminho oposto.

E vem aí o GazzSummit

O GazzSummit Agro e Foodtechs é uma iniciativa pioneira do GazzConecta para debater o cenário de inovação em dois setores de grande relevância para o país. O evento será realizado nos dias 8 e 9 de maio de 2024 com o propósito de conectar e promover conhecimento para geração de novos negócios, discussão de problemas e desafios, além de propor soluções para o setor.
O GazzSummit promove a disseminação de tecnologias e práticas de inovação que possam levar a cadeira produtiva ainda mais longe. Uma super estrutura espera os participantes, que poderão conferir mais de 30 palestrantes e mais de 300 empresas. O evento vai reunir players importantes do ecossistema como grandes empresas, cooperativas, produtores, entidades públicas, startups e inovadores. Garanta já a sua inscrição no site.

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