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Brasileiros no Vale do Silício

Sonho americano

Conheça a história de três brasileiros que fazem sucesso no Vale do Silício

Maria Clara Dias, especial para o GazzConecta
11/10/2022 19:15
Um imperativo entre os brasileiros, o tino empreendedor ecoa entre diferentes gerações como um dos principais desejos da população. Pesquisas do Sebrae, principal instituição de apoio ao empreendedorismo no país, avaliam o ambiente para os pequenos negócios do Brasil e indicam que a possível independência faz com que a vontade de conduzir um empreendimento figure entre os três principais sonhos da população, perdendo apenas para a casa própria e viajar pelo mundo.
O cenário macroeconômico desafiador, porém, acaba induzindo uma grande leva de aspirantes a empreendedores a buscar recursos financeiros, incentivos fiscais e estrutura para criar seus próprios negócios em outros países. Nesse cenário, berços inovativos e com alguma tendência ligada ao empreendedorismo novato e de impacto, como o Vale do Silício — nos Estados Unidos — tornam-se alvos fáceis.
A história do empreendedor Pedro Moura, natural de Natal, no Rio Grande do Norte, confirma a tese. Depois de encarar a criminalidade e as dificuldades financeiras em um empreendimento familiar, Moura e a família decidiram mudar-se para a Califórnia em busca de novas oportunidades. “Queríamos viver o sonho americano”, conta.
Da limpeza de casas até a entrega de jornais, a família encontrou maneiras de se manter e gerar algum tipo de renda. Anos depois, no entanto, sua mãe e o irmão mais velho foram deportados de volta ao Brasil.
“Naquele momento, tive que decidir voltar pro Brasil ou ficar por lá, ainda que sozinho, para tentar manter uma carreira de sucesso e foco nos estudos”. Decidido a ficar no país, formou-se em economia e passou mais de uma década trabalhando no mercado financeiro, em gigantes como Morgan Stanley e JP Morgan Chase.
Foi quando escolheu usar o conhecimento a seu favor e encontrar novos modelos de negócio, ainda na área de finanças, mas com a geração de algum impacto social. “Não queria mais apenas vender produtos. Queria impactar a vida das pessoas. Sempre soube que tinha o privilégio de poucos. Queria usar essa experiência e bagagem para melhorar a vida financeira das pessoas”, conta o empreendedor.
Não muito tempo depois, ele acabou entrando na fintech Oportun, hoje listada na bolsa de valores da Nasdaq. Famosa por seu propósito social, a empresa tinha o objetivo de conceder linhas de crédito para famílias imigrantes em busca de melhores oportunidades financeiras nos Estados Unidos.

Surge a Flourish

O tempo nos bastidores da fintech serviu para mais do que atender apenas a um desejo pessoal por transformação social. Também foi útil para que Moura percebesse a pujança do cenário de startups voltadas ou nascidas na América Latina.
A vontade de empreender falou mais alto e, em 2018, ele fundou a Flourish, fintech que desenvolve programas de recompensa e gamificação a bancos e fintechs da América Latina. No início, a empresa nasceu como uma conta digital de investimentos e poupança para jovens imigrantes que davam seus primeiros passos na vida financeira. Uma das principais estratégias era conceder incentivos para pessoas gerirem melhor o dinheiro, como recompensas para quem acompanhava gastos e poupava recursos.
Para os usuários finais, o grande mote do negócio está de fato nas recompensas ampliadas a outras ações do dia a dia. Um cliente pode definir uma quantia a ser poupada toda vez que o time do coração faz um gol ou quando visita uma loja de sua preferência, por exemplo. Já do lado das empresas, o benefício está no maior engajamento, o que consequentemente amplia o leque de produtos que os clientes estão dispostos a contratar em cada banco.
Depois de licenciar a tecnologia para fintechs e outras instituições financeiras, como cooperativas e bancos, o negócio decolou. Hoje, a Flourish atende clientes no Brasil, Bolívia e Estados Unidos e pretende chegar logo ao Equador, México e Colômbia.
Apesar da história de sucesso, ele alerta sobre o fato da trajetória empreendedora não ser tão glamurosa quanto parece. “As coisas não acontecem da noite para o dia”, afirma. O desafio, segundo ele, está em fazer as conexões certas, considerando especialmente a vivência com pessoas estratégicas para o negócio. “É preciso ter clareza de quem você quer perto de você, de colaboradores a investidores, e o valor que essa pessoa trará para a evolução da sua empresa”, diz.
Moura faz parte hoje de um contingente crescente de empreendedores decididos a tentar a sorte no exterior. De acordo o Ministério das Relações Exteriores, quase metade (45%) dos brasileiros que decidem empreender fora do país estão nos Estados Unidos. Por lá, aproximadamente 9 mil pequenos empresários vêm de terras brasileiras.

Da marinha mercante ao propósito

Nesta somatória também está a brasileira Caroline Shalitari. Ex-piloto de navios mercantis de petróleo no Rio de Janeiro, ela é hoje uma das empreendedoras mais proeminentes do Vale do Silício — uma trajetória que começou após a percepção de que os danos ambientais causados por sua profissão estavam em desacordo com os rumos desejados para sua carreira. “O trabalho era desafiante, mas eu buscava um propósito”, lembra.
Depois de um ano sabático, ela fez um curso de coaching e se apaixonou pela profissão. Uma viagem ao Vale do Silício para um mestrado em negócios internacionais e inovação disruptiva foi o pontapé inicial para o contato com o ecossistema de inovação da região.
Dessa proximidade, também surgiu a percepção de que negócios potenciais e ideias inovadoras nem sempre estavam ligados à realização de um propósito pessoal dos líderes daquelas empresas. “Percebi que mesmo que existissem boas ideias vindas dos talentos nas incubadoras, faltava um propósito nos founders”, diz. “A motivação para empreender estava ligada apenas às oportunidades de mercado e rentabilidade. Isso me assustava, pois aqueles serão os líderes da próxima geração e não avaliavam o impacto social daquilo”, diz.
Decidida a mudar esse cenário ela fundou a Nascente, uma empresa que se propõe a ajudar empreendedores “nascentes”, na fase de pré-incubação. Na prática, a Nascente ensina estratégias para gerar impacto para aspirantes a empreendedores e executivos que querem levar esses novos moldes de negócios para dentro de suas empresas. Agora, Caroline quer trazer a companhia para o Brasil e outras economias emergentes da América Latina “O empreendedor brasileiro tem muito talento, mas falta orientação para explorar todo esse potencial”, diz.

Carreira sem riscos

Atraído pelos cursos executivos de universidades na Califórnia, o brasileiro Henrique Tarasiuk mudou-se para o Vale do Silício em 2020. Desde então, coleciona experiências profissionais em grandes empresas da região, numa demonstração clara do desejo de brasileiros em não apenas empreender, mas criar carreiras à prova de crise em uma das economias mais relevantes do mundo.
Henrique Tarasiuk assumiu o cargo de  líder de equipe na OneSkin no início de 2022, após uma imersão no Vale do Silício.
Henrique Tarasiuk assumiu o cargo de líder de equipe na OneSkin no início de 2022, após uma imersão no Vale do Silício.
Mesmo dedicado aos estudos, Tarasiuk tinha uma característica que foge à curva: a experiência empreendedora de longa data, ainda no Brasil. Por aqui, ele fundou a Avaldoc, uma empresa de gestão inteligente para clínicas médicas, responsável por agendamentos e prontuários eletrônicos e receituários. Depois fundou outra empresa, de nanotecnologia, que fornecia microchips que poderiam ser acoplados em compressas de pano durante procedimentos cirúrgicos, para identificar a quantidade de compressas usadas evitando que elas sejam esquecidas dentro de pacientes. “Pensamos que se fosse possível abrir portas com esses chips, também conseguiríamos rastreá-los”.
Alguns percalços regulatórios e a necessidade de mais recursos financeiros barraram o avanço da empresa. À época, eram poucos os fundos de venture capital dedicados à área da saúde — diferente do cenário já existente no Vale do Silício. Foi então que decidiu voltar aos Estados Unidos para estudar, conectar-se com o ecossistema de lá e ganhar o repertório necessário para uma nova tentativa empreendedora no futuro. "Queria estar onde acontecia a inovação de fato”, diz.
Entre as aulas do MBA e mestrado e assistência a professores das duas universidades que cursava, ele sempre manteve conversas com importantes representantes do ecossistema. O primeiro fruto dessas conexões foi um estágio de verão na Johnson & Johnson, no núcleo de estudos de saúde e healthtechs.
Do campus universitário, conheceu Carolina Oliveira, fundadora da startup OneSkin. Em fase de captação, a empresa precisava de auxílio na estruturação do round e de outros detalhes mais técnicos. De um trabalho de meio período, Tarasiuk assumiu o cargo de  líder de equipe no início de 2022.
A outros empreendedores e interessados em tentar estruturar uma carreira profissional e de estudos no exterior, ele destaca a importância de arriscar e investir no networking. “Não tenha medo de ouvir um não, de empreender e quebrar, de se aplicar a escolas e não ser aceito. Se aproxime das pessoas estratégicas para o networking. É algo que só funciona com proatividade”, diz.

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