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Excesso de contratações durante a pandemia, altos salários, projetos abandonados com times ociosos e busca de caminhos mais sustentáveis são algumas razões apontadas por especialistas para as demissões em massa nas big techs.

Análise

Como as demissões em massa impactam o mercado de tecnologia no Brasil

Fernando Henrique de Oliveira, especial para o GazzConecta
16/02/2023 20:58
A onda de demissões em massa em empresas de tecnologia e do setor financeiro atingiu mais uma fintech brasileira, a unicórnio Neon que, na tarde de ontem (15), anunciou cortes na sua força de trabalho. Estima-se que as demissões estejam entre 9% e 10% da folha de pagamento da companhia.
Até o momento, a Neon é o mais recente unicórnio brasileiro
a anunciar um layoff. Na semana passada, foi a vez da Loggi, empresa de
entregas expressas, que desligou 7% de seus colaboradores. Antes dela, outras
empresas como Olist, C6 Bank, XP e Nubank também passaram pelo processo de
demissões em massa.
O movimento nacional reflete uma tendência de demissões que tem atingido grandes empresas de tecnologia do mundo. Recentemente, a Dell e o Zoom se juntaram às gigantes Microsoft, Alphabet (Google), Meta (dona do Facebook, Instagram e WhatsApp), Amazon e outras companhias que anunciaram cortes significativos desde novembro do ano passado. Ao todo, estima-se que mais de 150 mil profissionais foram desligados dessas empresas neste período.
Para João Gabriel, da IDEEN, se na pandemia muitas contratações foram feitas, agora o movimento é de retração. Foto: divulgação.
Para João Gabriel, da IDEEN, se na pandemia muitas contratações foram feitas, agora o movimento é de retração. Foto: divulgação.
Entre as razões apontadas para esta série de demissões está a desaceleração da economia passados os anos mais duros da pandemia. Se, durante o isolamento social provocado pela Covid-19, as empresas de tecnologia precisaram investir em novas contratações para atender demandas cada vez maiores, agora o movimento tende a ser o de retração. Esta é a opinião de João Gabriel, head de tecnologia da IDEEN. Para ele, trata-se de um momento difícil de reestruturação dessas empresas que precisaram fazer aquisições para aumentar seus times de tecnologia e que, agora, passam por uma readequação de cenários a níveis pré-pandemia.

"Times inteiros estavam ociosos", aponta especialista

Para Herman Bessler, CEO do Templo.cc e líder vertical de negócios e co-fundador do Instituto Brasileiro de ciência de dados (Bios-Unicamp), durante a pandemia, as grandes empresas de tecnologia presumiram que os hábitos pandêmicos seriam permanentes e apostaram nas contratações para sustentar o ritmo crescente da demanda. “Depois, alguns desses hábitos digitais retrocederam após o período pandêmico, outros se estabilizaram. Com isso, times inteiros ficaram ociosos”, comenta.
Para Herman Bessler, CEO do Templo.cc, a onda de demissões em massa das Big Techs se devem a uma retração da economia pós-pandemia. Foto: Templo.cc/Divulgação.
Para Herman Bessler, CEO do Templo.cc, a onda de demissões em massa das Big Techs se devem a uma retração da economia pós-pandemia. Foto: Templo.cc/Divulgação.
Outros fatores foram decisivos para que a onda de demissões
tomasse corpo no atual momento. Por exemplo, a pressão dos investidores em
relação à diminuição da liquidez de capital por causa do aumento dos juros nas
maiores economias do mundo e outras razões fizeram com que fundos de Venture
Capital e bancos de investimento exigissem maior rentabilidade para justificar
o risco de investimento em novas e “arriscadas” tecnologias.
“Com menos capital de risco disponível, as big techs estão priorizando produtos e times com margens mais confortáveis e modelos de negócio comprovados, desligando outros com performance mais questionável ou focados no longo prazo”, explica.
Um outro ponto importante também salientado por Bessler é que, com o setor mais maduro, o que aconteceu nos últimos 10 anos, o crescimento no número de usuários e receitas, no caso das big techs, se tornaram mais modestos. Sendo assim, com as expectativas de crescimento revistas, custos fixos também precisam diminuir, o que impacta a folha de pagamentos das companhias.
Tanto Bessler, quanto Gabriel apontam, ainda, para o fato de que as grandes empresas deste setor investem em novas tecnologias – e nem sempre estes investimentos vão resultar em produtos que ganharão o mercado ou que poderão ter sucesso em vendas. “A Microsoft, por exemplo, investiu no metaverso e abandonou o projeto logo depois para apostar na OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT”, conta Gabriel.
“Durante a última década, as big techs investiram em grandes apostas de longo prazo e muitas dessas apostas não trouxeram o avanço e o retorno esperado (ou mesmo qualquer retorno) e esta seria mais uma razão para as demissões de agora”, sinaliza Bessler.
Porém, Gabriel sugere que, mesmo diante dos cenários apontados, as ondas de demissões das big techs é menor do que o número de contratações feitas pelas grandes companhias ao longo dos últimos anos. “No caso da Amazon, as contratações foram de mais de 800 mil, enquanto as demissões não chegam a nem 10% deste total neste momento”, reflete.

Como fica a mão de obra no Brasil?

Os caminhos percorridos pelas empresas nacionais seguem a
tendência de cortes das big techs estrangeiras, todas buscando diminuir a
velocidade de crescimento vertiginoso para começar a crescer de forma mais
orgânica e sustentável na opinião de João Gabriel. Neste momento, cortes são
necessários. No entanto, a área de tecnologia segue aquecida no Brasil.
“Não me preocupam as demissões neste momento, sabendo que muitas são as oportunidades no mercado de tecnologia. É preciso perceber que a maioria dos profissionais demitidos de grandes empresas trazem uma bagagem que pode ser desejada por outras empresas que buscam neles oportunidade de crescimento. Tudo tende a se ajeitar num curto prazo”, avalia o head de tecnologia da IDEEN.
Em outros setores, contudo, a recolocação pode ser mais
difícil, como o de recursos humanos. Sem a necessidade de maiores contratações,
muitas empresas se viram na necessidade de abrir mão desses funcionários nessa
onda de demissões.
“Mas o mercado de tecnologia continua aquecido e muitas são
as startups e outras empresas, como as do segmento financeiro, por exemplo, que
buscam mão de obra qualificada para crescer em desenvolvimento”, afirma
Gabriel. Ele também aponta para oportunidades estrangeiras que buscam no
profissional de tecnologia brasileiro uma opção de contratação.
“Somos bem-vistos lá fora, como profissionais qualificados e
com salários atrativos. Num mundo sem fronteiras, como este no qual vivemos
agora, a possibilidade de um brasileiro atuar em empresas estrangeiras é alta.
Mas, para isso, é preciso ser altamente qualificado e com um bom nível de
inglês”, aponta.
Xavier Leclerc, sócio do Templo Ventures, braço da rede de inovação e tecnologia Templo.cc, diz que o fenômeno das demissões traz benefícios ao ecossistema. Para ele, executivos de big techs e de outras companhias que são demitidos são estimulados a empreender, atuar fora de sua zona de conforto, tendo em vista sua capacidade técnica.
 Para Xavier Leclerc, sócio do Templo Ventures, o fenômeno das demissões traz benefícios ao ecossistema. Foto: Templo.cc/Divulgação.
Para Xavier Leclerc, sócio do Templo Ventures, o fenômeno das demissões traz benefícios ao ecossistema. Foto: Templo.cc/Divulgação.
Leclerc também sinaliza para o fato de uma vez de volta ao mercado, esses profissionais se deparam com ofertas para as quais não tinham se atentado antes, já que outras empresas demitem ao mesmo tempo. “As demissões também oferecem oportunidade para outras grandes empresas contratarem esses talentos e acelerar as suas transformações digitais”, pontua.

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