Entrevista exclusiva

“Apoiar o empreendedorismo é o caminho para mudar a vida das pessoas”, diz Camila Farani

Maria Clara Dias, especial para o GazzConecta
01/11/2022 23:18
Ainda que representem quase metade do contingente empreendedor no país, as mulheres ainda enfrentam antigas barreiras no mundo dos investimentos. Uma pesquisa da Liga Ventures em parceria com a comunidade Ela Vence mostrou que mais da metade das empreendedoras nunca tiveram acesso a investimento inicial, enquanto 32,5% relataram dificuldade em obter capital para abrir seu negócio. Faltam, nesse cenário, figuras que possam contrariar a desigualdade de gênero no universo dos investimentos.
A investidora Camila Farani pretende mudar essa realidade. A empresária, que ganhou visibilidade ao se tornar jurada do programa Shark Tank Brasil, é também presidente da butique de investimentos G2Capital e uma das investidoras mais ativas no mercado de startups do país: o portfólio de Farani já soma R$ 40 milhões, em cerca de 10 anos como investidora. Recentemente, fundou ao lado de Flávio Pripas e Geraldo Neto — também figuras célebres do ecossistema empreendedor do país — a Staged Ventures, que irá dedicar US$ 50 milhões (cerca de R$ 252 milhões) para startups em fases iniciais.
Por trás da ambição em identificar as melhores oportunidades de mercado (aqui, lê-se empresas donas não apenas dos melhores produtos tecnológicos, mas também das melhores práticas de gestão de caixa e de times durante a crise), o fundo também deve auxiliar Farani na extensão de seu papel social como investidora. Isso porque a tese da firma também estará concentrada na separação do joio do trigo, mas com alguma inclinação à diversidade, especialmente por Farani representar uma das raras figuras femininas a ocupar uma posição do outro lado do balcão.
Farani é hoje líder do movimento Ela Vence, que capacita empreendedoras à frente de pequenos negócios, reconhecendo as altas taxas de mortalidade de negócios conduzidos por mulheres em seus primeiros anos de vida. O movimento, que atua como um hub de conteúdo para líderes femininas, deve impactar até 1,1 milhão de mulheres até 2023. “Estamos abertos às melhores empreendedoras, ansiosos para ouvi-las e apoiá-las”, disse a empresária.
Em entrevista ao GazzConecta, ela comenta as recentes movimentações do fundo, expectativas para o mercado de venture capital e também frisa o lado social da Staged Ventures e de seu papel como mulher investidora.
Veja abaixo:
Com o mercado de venture capital sofrendo em contexto global, como a Staged Venture pretende se firmar como uma firma dedicada justamente a levar empresas do Brasil para fora neste momento?
Para empresas brasileiras buscarem a internacionalização, elas precisam de conhecimento, investimento e um ‘playbook’ — ou seja, entender quais são os passos para migrar do nosso mercado, que é grande, mas não representa todo o potencial que existe ao redor do mundo. É nesse aspecto que a Staged Ventures atua, com investimentos que podem chegar a até US$ 50 milhões, entre 10 a 12 startups, com tickets de US$ 1,5 milhão a US$ 10 milhões por empresa.
Priorizando negócios operacionais e com modelos de execução robustos, a iniciativa viabiliza investimentos primários e secundários para multiplicá-los com mais segurança. Uma extensa rede formada ao longo de anos pelos grandes nomes do investimento — com atuação nacional e internacional — que lideram a Staged Ventures permite negócios consideráveis. O objetivo inicial da Staged Ventures é investir US$ 50 milhões até dezembro de 2023.
Como você enxerga o atual cenário de investimentos para startups no Brasil?
No primeiro semestre, as startups brasileiras arrecadaram US$ 2,9 bilhões, contra US$ 5,2 bilhões no ano passado. Temos um cenário de guerra, alta de juros, alta da inflação. Sem dúvida nenhuma, os investidores são obrigados a repensar suas operações e serem mais cautelosos. Mas, os fundos continuam capitalizados e precisam alocar os recursos.
Sou otimista porque os empreendedores estão muito mais maduros e realizando as adaptações necessárias no negócio e, inclusive,  revendo o movimento de crescer em detrimento de se preservar minimamente o seu caixa. 
Há setores que se destacam e, consequentemente, vão atrair a atenção da Staged Ventures?
Estamos olhando para todos os setores de oportunidade, mas com atenção especial para fintechs, edtechs e healthtechs, e atentos para cenários como da Web3, blockchain, Metaverso etc.
Priorizamos negócios operacionais e com modelos de execução robustos, para viabilizar investimentos primários e secundários para multiplicá-los com mais segurança.
Como é estar na liderança de um fundo? Quais são os principais desafios?
É bem desafiador, especialmente em um cenário turbulento e cada vez mais imprevisível. É preciso estar sempre atento a cada movimento e oportunidade. Para se conquistar um investimento, o produto ou serviço precisa ter mercado. Um grande desafio é o tamanho do mercado, as possibilidades de saída como investidora.
São mais de 350 itens a serem avaliados, mas, em resumo, eu analiso se o time tem capacidade e complementaridade entre si para que a startup cresça e possa justificar o investimento, avaliar se o mercado é grande o suficiente, e se o que a empresa oferece realmente resolve uma dor do mercado. Com a Staged Ventures, olhamos para startups mais maduras. Quem faz investimento conosco busca além da nossa experiência em escolher as melhores startups para investir,  também alguém que esteja próximo dos empreendedores e com visão de Exit.
Como você avalia o mercado de venture capital para mulheres atualmente, do ponto de vista das investidoras e fundos comandados especificamente por mulheres?
Entendo que o mundo dos negócios é, sim, lugar de mulher, porém existe um contexto que torna essa atividade, no mínimo, mais desafiadora para as representantes do sexo feminino. Ao mesmo tempo em que o número de mulheres donas de negócios próprios cresce de forma expressiva no Brasil, especialmente após o início da pandemia, elas ainda enfrentam muitas dificuldades.
Entre as ações importantes para fortalecer a presença das mulheres à frente dos negócios está a necessidade de se educar a sociedade acerca das possibilidades e dos benefícios da participação feminina de forma geral e sem preconceitos em todos os setores.
Precisamos criar ambientes seguros, que ofereçam uma boa base para as mulheres se desenvolverem, sem medos e sem preconceitos. Também é fundamental estabelecer uma liderança corporativa sensível e propositiva em relação às metas de ampliar a pluralidade dos times.
Há também um papel social na missão do fundo? Seja pela ótica da liderança feminina, ou pelas intenções em também capacitar, com smart money, empresas brasileiras potenciais?
Com certeza. Acredito que estimular o empreendedorismo é o caminho para transformar a vida das pessoas e dos negócios. Empreendedores movimentam a economia, geram riqueza para o Brasil e empregos. Eles lideram a criação de produtos que ajudam a modernizar setores tradicionais e decisivos para o desenvolvimento e competitividade do país, como varejo, saúde, indústria, saúde e finanças. Costumo dizer que investidor tem um papel fundamental no desenvolvimento da base de inovação de um país, já que ele apoia o empreendedor atuando como um conselheiro, criando pontes e oportunidades para as startups, ao mesmo tempo em que contribui para que o empreendedor amadureça.
O fundo terá, de alguma forma, parte da tese direcionada a startups femininas?
Estamos abertos às melhores empreendedoras, ansiosos para ouvi-las e apoiá-las.

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