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A Terraxy, startup saudita fundada por um brasileiro, aposta na agricultura regenerativa para mudar o status atual do cultivo em áreas inóspitas. Crédito: Distribuição.

Terraxy

Startup saudita fundada por brasileiro quer revolucionar agricultura

Maria Clara Dias
Maria Clara Dias
08/03/2024 15:00
Um desafio clássico da agricultura atual tem relação com o uso inteligente de recursos naturais e o combate às mudanças climáticas. O que significa que ampliar a capacidade produtiva, muitas vezes, depende da resiliência ante intempéries climáticas que pouco (ou nada) dependem do controle humano, assim como a adaptação às novas diretrizes ESG, que compreendem práticas sustentáveis no campo. Juntos, esses fatores impõem um novo desafio à cadeia produtiva: o de produzir mais, mantendo a preservação ambiental e priorizando a eficiência.
A questão tem sido a tese para o surgimento de inúmeras startups dedicadas à criação de modelos de negócio amigáveis ao meio ambiente. Essas empresas, agora à frente de uma verdadeira revolução na indústria agropecuária, desenvolvem modelos de negócio que prometem auxiliar de pequenos produtores a grandes indústrias no novo dia a dia no campo. Esse também é o caminho seguido pela Terraxy, startup saudita fundada por um brasileiro e que aposta na agricultura regenerativa para mudar o status atual do cultivo em áreas inóspitas.

De onde vem a ideia

A Terraxy é resultado de anos de pesquisa e testes em laboratórios após um denso projeto acadêmico do paranaense Adair Gallo Jr, natural de Matelândia. Engenheiro químico, formado pela Universidade do Oeste do Paraná decidiu se mudar para a Arábia Saudita para concluir um mestrado em Ciência e Engenharia Ambiental na Universidade de Ciência e Tecnologia King Abdullah (KAUST), a convite de seu ex-orientador de pesquisa durante períodos de estágio nos Estados Unidos, Himanshu Mishra (atual sócio da Terraxy).
Segundo Gallo, a escolha se justificava pelo potencial tecnológico do país, mesmo há alguns anos atrás. “Naquela época, já se falava em como a tecnologia na Arábia Saudita era imperativa. De fato, era tudo o que se fala. A estrutura da universidade não tem comparação. Aqui tive acesso a estruturas modernas e ao estado da arte em termos de equipamentos...Coisas que no Brasil eram compartilhadas entre diferentes universidades”, conta o empreendedor, em entrevista ao Gazz Conecta.
Os testes periódicos da tecnologia criada por Gallo e seus companheiros de pesquisa em campo logo se mostraram positivos, ao ponto de lançar a Terraxy para além dos muros universitários. Com apoio do orientador do projeto e financiamento da própria KAUST, o projeto logo tornou-se uma spin-off, ganhando o status de startup independente — ainda que mantivesse estrutura física dentro das dependências da Universidade, como uma empresa incubada (modelo que se mantém até hoje).

Agricultura do futuro

Terraxy é resultado de anos de pesquisa e testes em laboratórios após um denso projeto acadêmico do paranaense Adair Gallo Jr. Crédito: Terraxy.
Terraxy é resultado de anos de pesquisa e testes em laboratórios após um denso projeto acadêmico do paranaense Adair Gallo Jr. Crédito: Terraxy.
De lá para cá a Terraxy estendeu o portfólio para duas soluções que pretendem auxiliar plantios em larga escala em áreas desérticas, antes pouco amigáveis a diferentes culturas — daí a conexão imediata com a Arábia Saudita, país que concentra boa parte de seu território em um deserto que alcançam temperaturas próximas aos 50ºC durante os picos mais quentes do verão.
O primeiro deles, é um composto arenoso chamado de SandX capaz de auxiliar na retenção de líquidos no solo. Na prática, o produto impede a rápida evaporação da água do solo em suas camadas mais superficiais, ajudando assim no crescimento das plantas. A cobertura biodegradável, segundo a Terraxy, reduz a perda de água do solo em até 80%.
Já o CarboSoil, segundo produto do portfólio, é um biocarvão atua como um fertilizante natural, ajudando solos alcalinos a receberem a devida “correção” de bionutrientes, além de ajudar na retenção de carbono no solo por milhares de anos.
Segundo Gallo, a tecnologia é alvo de pesquisas há pelo menos vinte anos, mas com a Terraxy agora novas proporções. “Os primeiros testes que receberam esse biocarvão deram errado. Mas as pesquisas em todo o mundo mostravam resultados positivos, então decidimos insistir, corrigir o material, até que hoje temos resultados muito bons”, conta.

Futuro verde saudita

Um ano após ser oficialmente lançada em 2022, ao ser registrada formalmente na Arábia Saudita, Gallo pretende ampliar a proporção dada à Terraxy daqui para frente. “Estamos ganhando escala desde agosto do ano passado, padronizando a produção de biocarvão - que hoje é de sete toneladas por semana”, explica.
Segundo o fundador, a visão e missão da startup estão alinhadas com os objetivos da Visão Saudita 2030 e, mais especialmente, com os objetivos ambiciosos da Iniciativa Verde Saudita, ou Green Middle East. Na prática, isso significa que as soluções da Terraxy tem uma conexão clara com o grande objetivo do país saudita para o futuro: diversificar sua economia ao se empenhar em despertar o potencial econômico e sustentável nas grandes cidades, especialmente a partir de grandes projetos arquitetônicos, como é o caso de Oxagon, cidade flutuante que opera com energia limpa e receberá seus primeiros moradores já em 2024 e The Line, cidade vertical de 170 km de extensão construída em meio ao deserto.
De acordo com Gallo, hoje o principal cliente da startup é justamente um desses grandes projetos urbanos e futuristas do Reino -- que não pode ter seu nome divulgado por questões de confidencialidade.
O potencial de ambos os produtos de solucionar crescentes problemas da agricultura moderna podem alçar a Terraxy a um novo patamar, aproximando a startup de empresas de grande porte e também países interessados na agenda relativa ao futuro da agricultura para além da Arábia Saudita. “Cada país que cria e segue sua própria meta sustentável para o futuro é um potencial cliente para nós”, arrisca o fundador.
De acordo com ele, empresas do setor de alimentação que também têm desafios ligados ao descarte de lixo orgânico e contaminação dos solos também estão na mira. “Estamos com bastante tração, principalmente com nosso CarboSoil, inclusive buscando parcerias com grandes empresas da região”, diz.
O desafio do carbono também representa uma oportunidade no futuro da Terraxy. Com a movimentação de empresas e instituições públicas para acelerar o passo rumo a uma realidade de emissões reduzidas de poluentes, a expectativa é que as soluções criadas pela startup se tornem cada vez mais relevantes para grandes players.
“A pegada de carbono dessa indústria, especialmente da agricultura, é gigantesca no mundo. Vejo que a tecnologia não está lá ainda, então o que estamos fazendo é agregar valor a um solo degradado em territórios locais. Mas logo que escalarmos, essa tecnologia se tornará mais barata e acessível para toda a agricultura em escala”, conclui.

E vem aí o GazzSummit

O GazzSummit Agro & Foodtechs é uma iniciativa pioneira do GazzConecta para debater o cenário de inovação em dois setores de grande relevância para o país. O evento será realizado nos dias 8 e 9 de maio de 2024 com o propósito de conectar e promover conhecimento para geração de novos negócios, discussão de problemas e desafios, além de propor soluções para o setor.
O GazzSummit promove a disseminação de tecnologias e práticas de inovação que possam levar a cadeira produtiva ainda mais longe. Uma super estrutura espera os participantes, que poderão conferir mais de 30 palestrantes e mais de 300 empresas. O evento vai reunir players importantes do ecossistema como grandes empresas, cooperativas, produtores, entidades públicas, startups e inovadores. Garanta já a sua inscrição no site.

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